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O Ventor e a África

Sonhando com o Passado, o Presente e o Futuro da África

O Ventor e a África

Sonhando com o Passado, o Presente e o Futuro da África

Em áfrica, tudo é grande e belo. Podem ver aqui o meu menu africano



Um PV2. Havia destes no Niassa, em operação. Bom dia Tigres onde quer que estejam


21.02.11

Cahora Bassa, nasceu e cresceu


Quico e Ventor

Cahora Bassa (na língua local nhungué, significa: onde acaba o trabalho), nasceu e cresceu, no rio Zambeze, a cerca de 120-150 km de Tete.

No ano de 1969, quando eu caminhava por Nova Freixo e Vila Cabral, mais tarde chamadas de Cuamba e Lichinga, ouvi, pela primeira vez, falar na obra a que chamavam Cabora Bassa.

Em honra do que viria a ser essa grande barragem, tinha sido construída na zona de Vila Cabral (Lichinga), para os lados de Nova Madeira, uma barragem para irrigação a que chamaram Mini Cabora.

 

Podem ver aqui, no Shutterfly, as fotos de Cahora Bassa e arredores.

 

Um dia, eu e mais três mangas, saímos da Força Aérea de Vila Cabral (AM 61), armados de G-3 e apeteceu-nos caminhar até essa nova barragem e tinha sido aquilo a que eu poderei chamar, uma das grandes caminhadas do Ventor. Atingimos a barragem e depois hesitamos em subir pelo pico mais íngreme até ao monte da Capelinha. Só que por aí, ninguém subia para o monte da Capelinha, a não ser doidos! Mais ainda, quando dias atrás, conversando com um preto das milícias de Daniel Roxo e outro popular da cidade que conheciam aquela zona, me dissuadiram de subir aquela encosta, pois no seu seio haveria uma Pitão (vulgo jibóia), que seria do maior que existiria, em África. Nenhum deles me deu a certeza, mas era o que se constava e perante as incertezas, devemos sempre ser precavidos.

 

 

Barragem de Cahora Bassa, vista cá de cima

 

Nesse dia, das margens da barragem Mini Cabora, olhei a tal encosta mas não havia nada a fazer e subimos pelo lado contrário, em direcção a Vila Cabral, ao nosso Aeródromo. Na picada, do lado de Vila Cabral, começamos aos tiros aos patos com G-3. Os patos, coitados dos patos, não corriam perigo algum a não ser o barulho dos tiros. Eles voavam de ponta a ponta da barragem e, cada vez que a bala de G-3 entrava na água, eles, para nosso gáudio, faziam a sua demonstração de voo.

O então Inspector da PIDE/DGS, em Vila Cabral, Gonçalves Dias, apareceu de jipe, acompanhado por um dos seus agentes, deixando atrás um lastro de pó, no engodo do barulho das nossas célebres G-3.

Depois de uma valente reprimenda em que acho que só lhe faltou chamar-nos tarados, acabou por nos oferecer boleia para a Base no seu jipe, ocupado à frente por ele e o seu agente e com 4 lugares nos bancos laterais atrás (dois de cada lado).

 

 

 Uma espécie de gralha (?) na Barragem de Cahora Bassa

 

Eu, olhei para os cães, cheios de sede, com língua de palmo e meio de fora e disse: "aceitamos a boleia mas temos de levar os cães também"! Os cães eram 4 latagões, o Goldfinger, a Leoa e mais dois do seu tamanho. O Inspector olhou para mim e disse: «os cães vão atrás, a pé. Eles não se perderão»! Eu com toda a calma deste mundo: "está bem! Vão vocês que eu vou a pé com os cães"! O Inspector, Gonçalves Dias, já a ficar furioso: «vai a pé só? Já viu quantos km são? Você regula bem da cabeça? Sem água, com kms pela frente, com um calor destes na picada e nem tem onde beber! Se acha que os cães cabem, por mim até os podem levar ao colo, metam-nos dentro»! Lá nos amanhamos e dentro do jipe, lá trás, os 4 marmanjos e os 4 cães, colados uns aos outros, lá seguimos rumo ao AM 61.

 

Esta e outras caminhadas, umas vezes acompanhado, outras vezes só, são experiências de vida que nunca esqueço. Esta caminhada foi pelo monte da Capelinha, pela Mini Cabora e por conta da tal gibóia.

 

 

Cahora Bassa, nos tempos de chuva, tem água a rodos

 

Para mim, aquela pequena barragem já era grande, pois bem nos custou dar a volta a mais ou menos, entre 1/2 a 3/4 da sua periferia. Mas, mais tarde, fiquei siderado pelo tamanho dos números da grande barragem da Cabora Bassa! Eu que até estava habituado a deslocar-me ao LNEC (Laboratório Nacional de Engenharia Civil), em Lisboa, para observar os estudos de mini-hídrica ali levados a cabo sobre algumas das maiores barragens do mundo de então, onde não tínhamos nada a aprender com ninguém.

 

Mais tarde, acordei para os números de Cabora Bassa:

então, a segunda maior barragem do Continente Africano e a quinta a nível mundial;

uma albufeira com um comprimento de 250 kms e uma largura máxima de 38 km, com uma superfície de cerca de 2.700 km2 e uma capacidade de 63.000 milhões de m3 de água;

é uma barragem de tipo abóboda com uma altura de 163 m acima das fundações;

é detentora de uma capacidade de vazão de 13.600m3 por segundo;

possui uma potência com um grupo de 5 geradores de 415 Mw cada, podendo produzir 2075 gigawatts por hora, podendo a sua capacidade vir a ser aumentada;

as suas linhas de transporte de energia atingem cerca de 1.400 km, 860 km dentro de Moçambique;

foram escavados, 1.500.000 m3 de materiais, dos quais:

 - 200.000 m3 para a fundação da barragem;

 - 1.300.000 m3 para a abertura da Central, túneis de acesso, galerias da condução e sala de transformadores;

são mais de 2,5 kms as galerias, túneis e cavernas escavadas;

os 5 geradores de 415 Mw cada, estão albergados numa caverna de 217 m de comprimento, 29 m de largura e 57 m de altura;

As chaminés de equilíbrio, duas, têm comprimentos de de 242 e 342 m, por 15m de largura e 18 m de altura;

Foram empregues 600.000 m3 de betão ou concreto, dos quais, cerca de 450.000 m3 para a barragem e 150.000 m3 para obras subterrâneas;

Cabora Bassa foi a maior barragem de betão ou concreto, construída em África.

 

 

Se o Quico estivesse aui aposto que me perguntaria como este gajo me borrou a camisola ou, então se ele caíu numa lata de tinta de rabo para o ar

 

São números que nos falam de uma grandeza descomunal e, essa barragem, pode ser uma catapulta para outras vontades no levantamento de um Moçambique com a grandeza que merece.



O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

15.02.11

Cabora Bassa ou Cahora Bassa


Quico e Ventor

Coloco aqui, no Shutterfly, algumas fotos de Moçambique, todas elas se reportam a uma caminhada que amigos fizeram entre Maputo, Tete, Songo, a Barragem de Cahora Bassa e Chitima. Como não poderá deixar de ser, não vou deixar de fora descendentes de velhos amigos que um dia tive por Moçambique.

 

A barragem de Cahora Bassa (em língua nhungé, significa, o fim dos trabalhos), é o símbolo da vontade e da determinação que, no século passado, Portugal e o povo português, tiveram no desenvolvimento daquele grande território a que um dia, os homens, deram o nome de Moçambique.

 

Moçambique, é um velho território e um dos mais jovens Estados de África que obteve a independência de Portugal após 10 anos de uma guerra de guerrilhas, a guerra do "bate e foge", após a Revolução de Abril de 1974.

 

 

Aeroporto de Maputo, antiga Lourenço Marques, um centro de grandes caminhadas de portugueses e de moçambicanos que por ali transitam, também, nas suas caminhadas de sonhos, para cá e para lá, para lá e para cá

 

Para infortúnio de Moçambique e por ganância política, de incompetentes, influenciados e orientados por comunistas e capitalistas das grandes potências internacionais, bem pior do que a guerra do "bate e foge", os moçambicanos desgastaram-se em guerras intestinas que esventraram o país e o paralisaram, transformando o seu povo num dos povos mais pobres deste planeta, segundo estatísticas das Nações Unidas. E é pena! Autodestruíram as suas capacidades de produção, do tempo do chamado colonialismo português e, de um modo geral, pelas províncias de Moçambique, o seu povo genuíno, nascido e criado longe das chamadas "centrais internacionais", continuou na sua "tanga" de séculos, à espera de melhores dias.

 

 

Um dos muitos amigos que, em tempos, eu deixei por Moçambique. Ele e muitos outros, fazem parte das memórias das minhas caminhadas pelo trilhos do continente mágico

 

Também nós por cá, com o dito 25 de Abril, sofremos das mesmas influências dessas mesmas "centrais", de onde mentecaptos trouxeram novas ideias de produção, desfazendo o pouco que possuíamos, através de sistemas caducos em que só acreditavam aqueles que quiseram destruir para voltarem a construir a seu modo e mando. Ficamos de tanga e a chamada Libertação, apenas nos trouxe a chamada liberdade a nós e aos novos países africanos mas, sempre, nós e eles, numa rampa de plano inclinado em todos os campos da economia. 

Felizmente, que o povo português não era constituído pelos tansos que essas gentes esperavam e, com o brio proporcionado pela tão apregoada liberdade, acabaram por recolocar essas abencerragens políticas no lugar que, só em nome da dita liberdade, eles mereceram.  

 

 

Por entre estas montanhas escorre o rio Zambeze, rumo ao Oceano Índico. Entre elas, foi construída uma das maiores barragens do mundo, Cahora Bassa, cujos estudos iniciais terão começado com o levantamento cartográfico desta área do Zambeze, levado a cabo, noutros tempos, por voos aéreos  realizados por Gago Coutinho

 

Sempre, por aqui, me ouviram dizer bem de Moçambique e do seu povo e só lamento que os seus políticos continuem a bater na tecla da libertação do papão colonial, tal como a propaganda política fez quando do negócio da passagem da maioria do capital de Cahora Bassa para a soberania do Estado Moçambicano. Até dá a impressão que o papão português era o seu grande inimigo .... mas, Moçambique, está, de facto, cheio de papões que se escudam na sombra colonial. Portugal foi substituído por outros colonizadores da conveniência dos "dictacts" políticos daqueles que, em nome de Moçambique, se assenhoraram do seu território e das suas gentes. Pelo que sei, de muitas conversas destes últimos anos de tréguas, o amor do povo de Moçambique por Portugal e pelos portugueses, pouco ou nada tem a ver com a mensagem deixada pela classe política de Moçambique como se notou quando da entrega de Cahora Bassa.

 

 

Nesta barragem de Cahora Bassa, foram utilizados, na sua construção, 600.000 m3 de betão, sendo, nessa área, a maior de África

 

Mas os anos destroem tudo, ou então, se preferirem uma notação mais soft, os anos destruirão tudo o que haja de negativo entre os moçambicanos e os portugueses e reforçarão a amizade que sempre perdurará nos nossos corações. Isto foi o que eu sempre notei desde que um dia deixei o território de Moçambique e, desde que, uma moçambicana, estudante, em Lisboa, por razões económicas familiares, teve de regressar a Moçambique. No meio dos seus amigos portugueses, onde teve algum tempo para sonhar e após alguns dias de tristezas, teve de partir na rota que outrora o Gama levara mas, na turbulência da tristeza da sua vida, no dia fatídico da partida, no Aeroporto de Lisboa, quando se dirigia para o avião, voltou-se para nós na velha varanda das despedidas que então havia virada para a pista e gritou lá de baixo: "Ventor, nunca te esqueças do nosso Moçambique"! Ela tinha percebido, em meia dúzia de dias que, a maneira como eu falava da sua terra, junto de si e dos seus amigos, só podia representar o amor puro, que trouxe no meu coração por Moçambique e pela sua gente.

 

 

 Trata-se de uma grandeza colossal, a maior barragem construída por Portugal, até hoje

 

Tudo isto, para vos dizer que, desde então, me tenho apercebido que, a tal guerra do "bate e foge", nunca foi suficientemente grande para inculcar ódio entre nós. Seria essa a génese da vontade que levara Portugal, então, a apostar muito do que tinha e podia, na construção dessa grande barragem que na língua do povo da região onde se integra, os nhungés, se veio a chamar Cahora Bassa, ao tempo, em português, Cabora Bassa.

Voltarei aqui para falar da tal obra.

 

 



O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral