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O Ventor e a África

Sonhando com o Passado, o Presente e o Futuro da África

O Ventor e a África

Sonhando com o Passado, o Presente e o Futuro da África

Um PV2. Havia destes no Niassa, em operação. Bom dia Tigres onde quer que estejam


Em áfrica, tudo é grande e belo. Podem ver aqui o meu menu africano


O Ventor e a África ...

... foi a Grande Caminhada do Ventor por África

O Ventor caminhou em África ...

... em Tempo de Guerra, continuando a viver as memórias dessa parte da sua Grande Caminhada



Deixem passar o T-6



AB6

24.10.05

Chegada a Nacala


Quico e Ventor

O Navio Niassa caminhava rumo a Norte!

O Ventor observava as estrelas na escuridão da noite, sob o mesmo tecto do meu amigo Apolo e, escanchado sobre milhas marítimas, sabia que para lá desse horizonte que observava caminhando para norte, havia outros horizontes de sonhos para lá daquele que ele observava. Além de nomes já conhecidos dos seus estudos sobre o chão da guerra em Moçambique, ele recordava a Baía de Pemba, a foz do rio Lúrio que iria ser seu companheiro de caminhadas nas zonas das suas nascentes, ficava a foz do rio Messalo por cujas nascentes o Ventor também caminharia e, mais para norte, ficava a foz do rio Rovuma, que servia de fronteira entre Moçambique e a Tanzânia e que seria o limite, a norte, que o Ventor só chegou a ver do ar mas, mais lá para trás.

 Os barcos do Vasco da Gama, rumando a Norte protegidos pelos deuses

De repente o navio Niassa, muda de rumo! O Ventor sabia que estava na hora de mudar de rumo, sabia que estaria na hora de ver o seu amigo Apolo ficar para trás, no momento que o Niassa rumaria para Oeste e o seu amigo Apolo veria por baixo dos seus trilhos, a "caravela de ferro", que transportava o Ventor e seus companheiros rumo a bom porto.

A Baía era larga e comprida e o fim, o objectivo final, onde o navio Niassa iria atracar, ainda estava longe. 

 
Memórias
 
Mas o Ventor não pensava na lonjura da amarração do Niassa e preparar a sua descida sobre as terras do Norte de Moçambique. Ele sonhava! Sonhava com o belo Moçambique que estudara durante cerca de 8 meses, na Av. António Augusto de Aguiar, em Lisboa. Todos esses estudos foram avidamente acompanhados com grandes mapas militares de Moçambique, especialmente, a Norte. O Ventor tinha detalhado tudo para a terra que ele já tanto gostava, mesmo antes de a conhecer. Ele sabia, quando o Niassa voltou para Oeste que, a Norte, ficava Mocimboa da Praia, uma das portas da guerra, no Norte de Moçambique. Foi ali que, em 1917, Portugal colocou a primeira esquadrilha aérea de combate, em todo o Continente africano, em 1917-1918, na 1ª Guerra Mundial contra a Alemanha.
Moçambique foi, assim, o primeiro campo do combate aéreo, em todo o Continente Africano, contra a Alemanha.   
 
 
Canal de Moçambique e a velha ilha de S. Loureço, a actual Madagáscar
 
Enquanto caminhava no Canal de Moçambique, o Ventor sonhava com a Geografia e com a História, duas áreas que ele, nesses tempos, dominava bem. E, desde Lisboa, sonhava com o Niassa! Sonhava com o Niassa, sonhava com os Lusíadas, sonhava com o Canal de Moçambique, sonhava com Nacala e esse objectivo estava a ser atingido. Agora, à frente do Ventor, estava a Baía dos seus Sonhos. A Baía Fernão Veloso!
 
A quilha do Niassa continuava a abrir águas e prosseguia a sua caminhada rumo ao molhe do seu encosto. Depois de observar as belas águas desta Baía, as suas margens ao longe ou ao perto, com praias brancas de onde todos os seres observavam aquele pequeno monstro (o navio Niassa) carregado de almas que, choravam, no seu pensamento, tudo o que deixaram para trás.
 
O Niassa encostou no topo daquela sua curta caminhada pois, de seguida, regressaria ao ponto de viragem e recuperaria a sua rota, rumo a norte, ao local onde esteve concentrada a tal 1ª esquadrilha aérea da 1ª Guerra Mundial, em todo o Continente Africano. Isto, porque houve tempos em que, Portugal, caminhava na dianteira de muitos.  
 
 
Um camarão que podia ser do Porto de Nacala
 
Enquanto o Niassa encosta, o Ventor observa as águas da bela Baía de Nacala, a Baía Fernão Veloso. Os bichinhos de que muitos gostam, os camarões (os belos shrimps), apareciam à superfície das águas. A tropa arranjou um belo entretenimento. Deitava pedaços de pão na água e nuvens de camarões apareciam à superfície. Parecia que diziam: "olá, pessoal! Sabemos que têm o Ventor a bordo"!
Eles são amigos do Ventor! Eles sabem que pelo Ventor a sua vida teria um êxito diferente.
 
Nesse momento, de aglomeração dos camarões, um ronco rasga os céus. Era um avião Nord-Atlas que descia sobre o navio Niassa e, numa passagem baixa, dava as boas-vindas àqueles que viriam a ser seus novos Companheiros de Guerra.
Logo de seguida, vindo das alturas, rasgando os ares, o ronco a rasgar os céus, desta vez, um T-6 (Texano-6). Ele aproxima-se dos mastros do Niassa, o piloto sorri e acena. O Ventor observa o avião e verifica que está furado. Mais tarde, veio a saber que esteve debaixo de fogo de antiaéreas. mas o AB5 esperava-nos para quatro dias de calma, na nossa caminhada.


O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

10.10.05

De Lourenço Marques a Nacala


Quico e Ventor

Ao sair da bela Baía do Espírito Santo e ao entrar no oceano Índico, as cores das águas de superfície ainda se encontravam bem sujas de tanto esfregarem as areias contra as rochas do fundo do mar, ainda influência da antevéspera, dia da nossa chegada à bela Lourenço Marques, a cidade feiticeira. Encostados aos molhes, ficaram os barcos que se encontravam no dia da chegada. Aquele porto era um rodopio e a monção que nos saudou à chegada, não tinha sido nada agradável.

O Ventor e toda a rapaziada que com ele viajava tiveram uma demonstração num bravo ensaio levado a cabo pelo seu amigo Neptuno. Apolo sorria lá de cima e, através das belas acácias, já tinha mostrado ao Ventor como aquela parte da África, onde a Princesa do Índico se espraiava, era linda e assim continuaria, certamente, depois de mais uma caminhada de cerca de 2.000 km.

 
Estação dos Caminhos de ferro de Lourenço Marques (Maputo)
 
Lourenço Marques, já ficara para trás e o Índico continuava sujo e um pouco picado, talvez devido ao reboliço do tridente de Neptuno que tanto gostava de marcar presença perante o Ventor.
À medida que o Niassa ia penetrando as águas do mar, o Ventor, caminhando pelo convés do Niassa ia observando, à sua esquerda, a grande costa moçambicana, por onde nos seus sonhos caminhavam manadas de búfalos, leões, leopardos, chitas, rinocerontes, jibóias, impalas e vários tipos de zebras e gnus, bem como toda a outra bicharada que o Ventor levava na sua cabeça. A bicharada que o Ventor tinha apreciado quando através de livros e revistas, comentários cinematográficos coloridos e filmes, foram trazidos até à presença do Ventor e que, em sonhos, o Ventor os retransportava, agora, para as suas origens.
  
 
Ilha de Moçambique
 
Rumando a Norte, vendo a quilha do Niassa cortar as águas, o Ventor verificara que todo o seu mundo ficara para trás. Todo o mundo que o Ventor conhecia, já ficara para trás! A sua última réstia tinha sido a cidade das acácias, o fim de tudo. Ali, os seus amigos tinham feito florir as flores desse outro mundo de sonhos, as suas referências. Eles eram os marcos finais da sua Grande Caminhada africana. A partir dali, tudo seria para desbravar! As referências tinham terminado no sítio a que os ingleses, noutros tempos, tinham chamado Delagoa Bay! Mas nós chamamos Baía do Espírito Santo. Avançando mar fora, as referências do Ventor eram, agora, apenas, as históricas.
 
Observando o Canal de Moçambique, entre a costa de Moçambique e a ilha de Madagáscar, sonhava como teria sido o "surfar" das caravelas do Gama e de outros, naquela mesma direcção. Recordava-se do rio dos Bons Sinais, da corrida de Fernão Veloso, que afoutadamente aceitara o convite dos indígenas para conhecer as suas palhotas tabancas e que, apercebendo-se de algo que não viria a ser nada bom para a sua caminhada africana, resolveu inverter a caminhada e pôs-se em fuga rumo às naus. Como os seus companheiros, vendo-o em fuga, tiveram de ir em seu auxílio, o Fernão Veloso dizia-lhes que corria por os saber lá longe sem a sua presença para os ajudar! Lindos os Lusíadas, agora, o principal meio das minhas referências do grande Canal de Moçambique e da costa moçambicana! 
  
 
Primeira residência do Governo Colonial, na ilha de Moçambique
 
De vez em quando apreciava umas palmeiras sinalizando ilhas ou reentrâncias no horizonte da costa moçambicana e, perdida na bruma aquilo que, segundo os mais conhecedores do Niassa, diziam ser a Ilha de Moçambique. Ela estaria lá! Um dos nossos mais célebres signos históricos da bela terra de Moçambique. Havia por ali uma ilhota com três palmeiras a que eu chamei "as três Marias"! Para lá delas ficava o "interland" de Moçambique, rumo a oeste. 
 
 
Forte de S. Sebastião, na Ilha de Moçambique
 
Por ali, à nossa esquerda, junto à costa, estaria a bela ilha de Moçambique, perdida nas brumas do Índico, com a sua fortaleza a que deram o nome de Forte de S. Sebastião. Onde os portugueses acostavam, por tempos indeterminados e que, para eles a área tivesse alguma possível função estratégica de ocupação e defesa, havia um primeiro pensamento. Construir um forte! E, a ilha de Moçambique, não iria ser excepção. Ela lá está, bela, incrustada no Oceano Índico, aguardando pelas caminhadas de homens audazes que lhe dêem o futuro que merece.
 

Capela de Nossa Senhora do Baluarte, na Ilha de Moçambique
 
Rezar a Nossa Senhora para acalmar as águas do Índico era uma maneira de estar em Moçaambique, durante a nossa estadia de séculos. A capela do Baluarte foi construída, em 1522, a norte da ilha que hoje austenta vários edifícios públicos que a Unesco tornou Património Mundial, em 1991.
 
Deixada para trás, à esquerda, escondida na bruma do Índico, a ilha de Moçambique, era mais uma das minhas referências histórico-geográficas que fazia fervilhar a cabeça, balouçando nas ondas do Índico. 
Eu sabia que mais acima, à esquerda, o Niassa iria entrar numa das maiores Baías de África e com as águas mais profundas que, segundo me contavam, nos meandros da Força Aérea, em Lisboa, dava para guardar e ancorar todas as esquadras de então que a NATO possuía. Era por essa baia que o  Niassa chegaria ao Porto de Nacala.


O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

08.10.05

Ainda os Leopardos


Quico e Ventor

Belezas inesquecíveis

 

Diz o Ventor que não pode deixar esta maravilha da Natureza apenas pelo seu encontro com aquelas beldades de Marrupa.

Como diz o Ventor, todos os animais são belos mas, como tudo na vida, há uns que são mais belos que outros.

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Apesar de a sua segurança não ser absoluta, as árvores são o melhor refúgio dos leopardos

«Contudo, aqueles primeiros encontros, com o leopardo às quatro horas da tarde de um belo dia de sol e, depois, mais tarde, com a pantera negra às duas da manhã, foram muito importantes para mim.

Foi a primeira vez que, num local do fim do mundo, me encontrei frente a frente, com um leopardo sem grades entre nós e isso deixou-me extasiado no meio de tanta beleza e, ainda por cima, me deu a oportunidade de o contemplar atempadamente. Tive tempo para olhar bem aquelas formas harmoniosas de onde saltavam sobre aquele pêlo dourado, as manchas negras e brilhantes que o tornam o bicho mais apetecível do mundo aos olhos daqueles que só pensam em satisfazer o seu ego cheio de avareza ao ponto de não se importarem se os leopardos continuarão a preencher o espaço que lhe foi reservado, a nosso lado, pelo Senhor da Esfera.

Aquele leopardo olhando-me perscrutava o meu rosto, profundamente, e eu senti que ele me olhava, olhos nos olhos, tal como eu o olhava a ele. Mais tarde, com a pantera negra, já foi diferente. O medo do Tavares e a pressa de atropelá-la com o jipe, tirou-me essa oportunidade de nos apreciarmos mutuamente e com mais pormenor. Ali no contraste do luar e da sombra das árvores, misturados com a falta de tempo, não houve possibilidade de nos observarmos muito melhor. Deu, no entanto, para ficarmos com a certeza de que as panteras negras eram reais, caminhavam e, provavelmente, ainda caminharão a nosso lado.

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Como é lindo o leopardo

Diz também o Ventor que o leopardo descansa nas árvores onde se protege dos seus concorrentes perigosos, onde o leão é o mais temível. Na árvore, o leopardo faz um observatório de caça, faz a despensa e, faz o seu último reduto, quando ameaçado pelos leões. Mas, como em tudo, não há nada definitivo.

Há leoas tão ágeis que conseguem trepar às árvores quase tão bem como o leopardo e que, chegam não só a roubar-lhe a presa como, por vezes, até o expulsam da própria árvore, atacando-o ali e, o leopardo, não tendo para onde trepar mais, é obrigado a saltar, ficando assim exposto aos leões que, por baixo da árvore o esperam.

Houve um grupo de cientistas que viram isso acontecer e viram os leões atacarem o leopardo que ficou tão ferido que tiveram de intervir para o ajudar, evitando que fosse desfeito pelos leões. Mas, o leopardo ficou tão mal tratado que apanhou uma infecção e ficou muito doente. Dois ou três dias depois, encontraram-no combalido, cheio de fome e sede e sem forças para caçar.

Ofereceram-lhe água e ele aceitou. Ofereceram-lhe carne e ele também aceitou, comendo-a ali perto deles. Saciada a sede e a fome, o leopardo olhou-os como se lhes quisesse agradecer a refeição e caiu morto para o lado.

Agora, diz o Ventor que é necessário continuar a fazer algo em defesa dos leopardos. É uma luta que vem já da última metade do século passado, o nosso célebre século XX. Em meados do séc. XX, chegaram a ser exportadas, ilegalmente, de África, só num ano, por caçadores furtivos, para a Europa e a América, cerca de 50.000 peles de leopardo. Para se alimentar, o leopardo ataca primatas, fococheros e outros roedores e o seu desaparecimento em determinadas áreas permitiu que estes animais se reproduzissem muito mais, originando um grande desiquilíbrio ecológico, levando-os a destruir grandes extensões de colheitas que tanta falta fazem para o seu povo.

O World Wildlife Fundo, uma organização mundial que se tem destacado na defesa dos animais selvagens em risco de extinção, ao tempo presidida pelo Príncipe Bernardo da Holanda, escreveu a presidentes de vários países do Mundo a pedir-lhes para proibirem a importação de peles de leopardos e gatos pardos ou chitas. Isso levou o Canadá a proibir a importação dessas peles e, de seguida, o então Presidente dos Estados Unidos a apresentar um projecto de lei que pedia à Câmara dos Representantes que proibisse a importação de peles de todos os animais em vias de extinção. Assim, a partir de meados do século XX, alguns países têm estado a travar uma luta na defesa destes belos animais que, pela cobiça humana da sua pele para adornar alguns seres camafeus que nada valem, como diz o Ventor, correm o risco de desaparecer para sempre do nosso convívio.

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 O leopardo é um animal para todos os terrenos

O que faz com que os animais selvagens sejam extintos do nosso convívio são as grandes caçadas descontroladas por gente sem escrúpulos que apenas pretendem exibi-los como troféus da vida estéril que levam ou com o objectivo de arrecadar mais umas pequenas fortunas para melhor continuarem a propagar a sua estirpe pérfida na luta contra o equilíbrio de que este planeta tanto precisa.

E isto é feito por gordos e anafados senhores que nada fazem e são alimentados de estupidez e de pequenas ou grandes heranças que desperdiçam a matar felídeos e outros animais que igualmente correm perigo de extinção. Os felídeos, nas suas escaramuças permanentes, conseguem manter o equilíbrio entre eles. Eles próprios se matam uns aos outros e se o mais fraco não consegue matar o mais forte, pode matar as suas gerações mais novas, resultando daí o fatídico equilíbrio natural.

O leopardo é o animal que mais se adapta ao meio ambiente e, não sendo apenas o mais belo predador dos grandes felídeos, é também o que ocupa maior área, que vai desde o nível do mar ao cume das montanhas, resistindo em toda a espécie de meios, tanto, em África, como em toda a região sul da Ásia (China, Vietname, Malásia, Índia, Pérsia, Indonésia e outros). Por curiosidade, os leopardos das selvas, chegam a pesar 100 kg, os do deserto, 60 kg e os da savana cerca de 80 kg.

Terá sido um animal desta compleição que esteve frente ao Ventor, que hoje também tem 80 kg e, às vezes, vou dar com ele na casa de banho a olhar o espelho e a perguntar-se, como fazer para derrubar outro animal com três vezes o seu peso! Ele pode arrastar até 200 kg de peso e trepar uma árvore com 120 kg.

Eu digo-lhe que, sou gato grande mas não sou tanto e, por isso, talvez fosse melhor voltar a Moçambique, Niassa e, talvez os seus amigos lhe ensinem como fazer. Mas o Ventor tem resposta para tudo ou quase e disse-me que, de todos os animais do seu tempo e, que ele conheceu, já não haverá um único para pedir desculpas às famílias de uns e poder dizer a outros, como os leopardos que viu, quanto foi feliz entre eles.



O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral