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O Ventor e a África

Sonhando com o Passado, o Presente e o Futuro da África

O Ventor e a África

Sonhando com o Passado, o Presente e o Futuro da África

Um PV2. Havia destes no Niassa, em operação. Bom dia Tigres onde quer que estejam


Em áfrica, tudo é grande e belo. Podem ver aqui o meu menu africano


O Ventor e a África ...

... foi a Grande Caminhada do Ventor por África

O Ventor caminhou em África ...

... em Tempo de Guerra, continuando a viver as memórias dessa parte da sua Grande Caminhada



Deixem passar o T-6



AB6

28.06.05

Quatro dias em Nacala


Quico e Ventor

Após a passagem baixa, primeiro do Nord-Atlas e pouco depois do T-6, sobre o navio Niassa, continuamos a aguardar que o Niassa fosse seguro pelos molhes e, entretanto, continuamos na brincadeira com as "ondas" de camarões que, vindos do fundo da baía Fernão Veloso, se lançavam sobre os bocados de pão que a tropa ia lançando à água. Aquilo era um presságio da fartura dos mariscos que alguns iriam comer, nos próximos dois anos da sua estadia por Moçambique.

Depois lá vieram os transportes para os pára-quedistas do BCP 32 e para nós os técnicos especialistas da Força Aérea que iríamos largar o Niassa por tempo que não fazíamos ideia mas, pelo menos, por dois anos.

Mais uma observação ao Porto de Nacala e lá nos dirigimos ao AB5, Aeródromo Base 5, instalado, podemos assim dizer, cercado de cajueiros. Era Janeiro, se não falhar na memória de tantos anos, 25 de Janeiro de 1968.

Mapa da área de Moçambique que vai de Nacala a Vila Cabral (actual Lichinga), com passagem por Nampula e Nova Freixo (actual Cuamba). Nessa caminhada, de 31 de Janeiro de 1968, a viagem foi de Automotora, entre Nacala e Nova Freixo. Foto tirada da Wikipédia de autoria de André Koehne. A utilização deste ficheiro é regulada nos termos da licença Creative Commons - Atribuição - Partilha nos Mesmos Termos 3.0 Não Adaptada

O calor já escaldava e fomos ao bar beber umas cervejas Mac-Mahon, a cerveja da garrafa verde e, de seguida, dirigimos-nos para junto do T-6 baleado que passou sobre o Niassa saudando os seus ocupantes. Lá estavam os buraquinhos das balas "turras" a dar-nos uma achega para o combate que se avizinhava. Mas ali e durante quatro dias estávamos em paz.

No dia seguinte, como não tínhamos que fazer, quatro malandrecos, resolvemos ir visitar as belas e famosas praias de Nacala. Estava calor e era preciso descobrir o caminho para a praia por entre matos e cajueiros. Um pretinho, puto com cerca de sete anos que andava infiltrado nos meandros da Força Aérea de Nacala, correu para mim e disse-me que sabia o caminho para a praia. Acreditei nele e aceitamos a oferta. Durante quatro dias ele foi nosso companheiro de caminhadas entre o AB5 e a praia, por trilhos de cajueiros e por entre passarada linda que eu nem sonhava que existisse. Para mim, dos mais lindos eram pretos e vermelhos e ainda hoje não sei o nome deles mas tentarei investigar. No seu seio, apareceu, sobre os cajueiros peneirando, um dos meus amigos falcões peneireiros, semelhante aos que me tinham acompanhado por Adrão, há mais de sete anos atrás.

Nunca fui amigo de praias e, além da Costa da Caparica, onde em 1961, conheci o mar pela primeira vez, a praia de Nacala também contribuiu para isso. Apanhei um escaldão que nunca mais esqueci. Todos os dias vinha uma chuvada e eu abusava dessa chuveirada dentro da água do mar, na zona baixa onde os tubarões não conseguiam penetrar. Naquela extensão de águas baixas, não havia tubarão que se aproximasse sem nós os avistarmos mas, quando caiam aquelas bátegas de água, toda a nossa visão era desfeita pelas covinhas da chuva na água serena do mar.

Praia de Nacala, foto de Stig Nygaard, tirada da Wikipédia. This file is licensed under the Creative Commons Attribution 2.0 Genericlicense.

Um dia, o último dos quatro, na esperança de fugir ao escaldão, sentei-me fora da areia numas rochas junto de uma falésia, à sombra da falésia e das árvores frondosas que cresciam sobre ela. Na areia caminhavam o pretinho, os meus 3 amigos e três cães rafeiros da base que nunca nos largaram. Normalmente, para onde eu for e haja cães, eles vão  sempre comigo. Os sete, caminhavam pela areia da praia, da minha frente para a minha esquerda e, já um pouco afastados à esquerda, quando voou das árvores da falésia, sobre a minha cabeça, vindo de alguns 20 metros de altura ou mais, aterrando na areia à minha frente, dirijindo-se para a água da baía, deixando um sulco na areia da praia, onde parecia que tinha passado um arado, como os de Adrão, na veiga, no mês de Maio. Aos meus gritos, os cães ainda o tentaram perseguir até à água mas, junto dela, terão pensado que ali era o mundo do animal e desistiram da tentativa. Dizia eu que era um grande lagarto verde ou se calhar, um jacaré pequeno.

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Iguana - Semelhante à minha iguana de Nacala

Mais tarde, nas minhas pesquisas, vim a saber que havia iguanas no Índico e, teoricamente, estava encontrado o animal que me voou sobre a cabeça, numa praia de Nacala. A "fotografia no meu cérebro" foi de tal ordem que ainda hoje vejo as rochas treparem pela falésia acima, as árvores e a provável iguana que vi da minha vertical até à água do mar. Ela fez um grande barulho ao saltar do meio das árvores que eu virei a cabeça e apanhei-a lá em cima, a alguns 15-20 metros da minha cabeça num autêntico voo rumo ao mar. Passou toda aquela zona de pedras onde eu me encontrava e aterrou em plena areia atravessando a areia da praia a grande velocidade.

Depois da grande chuvada e do respectivo duche, iniciamos a subida até ao AB5 e dirigi-me, mais uma vez, à Enfermaria para me tratarem da minha pele rosadinha a tostada, fazendo lembrar as cascas das bananas bravas que vim a conhecer mais tarde nas caçadas do Niassa.

Quando saí da Enfermaria fui caçado para me entregarem a Guia de Marcha para Nova Freixo e receber instruções para ir receber as rações de combate para a viagem de comboio, no dia seguinte, que seria cerca de 15-18 horas. Resolvi ficar-me nas tintas para as rações de combate pois, em tantas estações e pseudo-estações, sempre haveria de arranjar algo para comer, pensava eu.

É linda a gente de Moçambique. Em Moçambique, eu sentia-me no meio das minhas gentes. Uma foto de Steve Evans, tirada da Wikipédia. This file is licensed under the Creative Commons Attribution 2.0 Genericlicense.

Mas Nacala não fora só praia! O Nord-Atlas que chegara de Mueda (Terra da Guerra) e sobrevoara o Niassa tinha transportado de Mueda para Nacala, alguns "rufiões" da nossa gente, armados em heróis de "combates" sem fim que, durante a nossa estadia por ali, foram autênticos companheiros de jornada, cantando Mueda, Terra a Guerra ... e armando umas escaramuças com representantes demonstradores de fotos da Sofia Loren, um e da Gina Lollobrigida, outro. As fotos destas belas mulheres eram a flor do hibisco para os incautos a que a malta de Nacala renomeara de Sofia e Fedra. A "Sofia" e a "Fedra", abriam as portas dos armários forradas com as belas fotos daquelas estrelas do cinema. Técnicas! Técnicas que os sisudos e duros chegados de Mueda não gostaram e causaram alguns alvoroços. Mas enfim, na guerra há de tudo.

Chegara pois o momento de reiniciar mais uma caminhada na sondagem de outros mundos novos que se seguirá com essa célebre viagem Nacala-Nova Freixo. Iríamos caminhar no coração das gentes macuas.

Monte Muresse no Gurué. Caminhando na auto-motora, desde Nacala até à velha Nova Freixo (actual Cuamba) as belezas eram enormes, como esta do Gurué



O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

08.06.05

Duelo na Savana


Quico e Ventor

História de um búfalo, a que o Ventor chamou Lumi

Olá, amigos!

Lumi era um búfalo amigo do Ventor.

O Ventor e o Lumi conheceram-se nas margens do Rio Lugenda.

Agora, o vosso amigo Quico, vai contar-vos esta história, tão linda quanto terrível, que ouviu ao Ventor. Como já sabem, ele esteve naquela famigerada guerrinha. Foi ali que aprendeu muito na vida! Só vos posso contar algumas coisas porque o Ventor não gosta muito de falar disso. Mas vai-me contando algumas histórias e eu filtro-as para vocês!

Contou-me, por exemplo, esta história a que chamou - Duelo na Savana

Diz o Ventor que histórias na savana se desenrolam todos os dias e há poucos que as contam porque, para além dos entretimentos nos safaris, há pouca capacidade para dar a conhecer aquele mundo belo, mesmo que selvagem.

A vida dos safaris é para ricos, tipos com grana, como dizem os nossos irmãos de além Atlântico. Depois dos safaris, o que querem é sopas e descanso e partir para outras caçadas que, o Ventor, a partir de uma certa altura, repudiou!

Mas, nas savanas, a vida é dura para os nossos lindos amigos que por lá caminham todos os dias. E, desta vez, eu vou contar-vos a história do Lumi, um búfalo de que o Ventor muito gostava.

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Imaginem-se a olhar leões nas margens do rio Lugenda, olhando-vos, já ao cair da noite!

Lumi, nasceu no meio do capim, num vale da serra de Mecula, bem juntinho ao rio Lugenda, no norte de Moçambique. E, Lumi, poderia ter-nos deixado muitas histórias da sua vida se, por acaso, soubesse ler e escrever mas, os búfalos, ainda só têm a escola da vida. Vida dura, embora o seu trabalho seja só comer e dormir, pensarão muitos de nós. Mas não! A vida do Lumi foi como a vida de todos os búfalos e como a de todos os animais da savana, uma luta permanente! Ele nasceu lindo! Sua mãe começou logo a limpar-lhe o "fato" com que se apresentou perante Apolo, o amigo do Ventor e de todos nós e, ao ver o céu azul, "a tenda de Apolo", terá exclamado: «assim vale a pena»!

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Este pequenino, podia ser o Lumi

Reparou que, à sua frente, os pastos eram verdes e, terá pensado que, no meio daqueles vales, tudo continuaria lindo e valeria a pena viver a vida de búfalo. Quando olhava para a sua mãe considerava-a uma bisarma, cheia de grandeza e força. Imbatível!

De repente, Apolo, o amigo do Ventor, na sequência da sua caminhada, partiu e Lumi apercebeu-se que à sua volta a escuridão era enorme. O terror apossou-se de Lumi. A sua segurança era apenas o cheiro de sua mãe e Lumi, sempre com a cabeça encostada à sua perna dianteira, nunca a largava no meio daquela escuridão horrenda. Ao fim dessa tormenta, começa a raiar, no horizonte, uma ténue luzinha e Lumi começava a observar os pontinhos brancos, no tecto da tenda. De repente, a leste, no horizonte, voltou a nascer outro sol e, ao romper da manhã, toda a família e amigos se espalhou, a comer a erva tenra. Lumi só tinha sentido para os tetos da mãe e não percebia aquele menear de cabeças à sua frente, pelo vale que desce encostas até às águas límpidas do rio Lugenda, numa azáfama permanente e sempre a dar ao dente.

O calor começou a subir e todo o seu Maralhal se começou a encostar pelas sombras frescas do grande arvoredo. Ali, mais em baixo, as águas do Lugenda, caminhavam ao encontro do seu receptor, o rio Rovuma e reflectiam nos grandes montes, a gloriosa luz de Apolo, o amigo do ventor.

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Búfalos, sempre alerta!

Assim, por trilhos maravilhosos, Lumi ia crescendo e caminhando, dia após dia, ano após ano, ao lado de sua mãe, a quem prometera ser seu guardião e, também, ao lado dos perigos que povoam a savana.

Quando os aviões de guerra se aproximavam, fazendo passagens baixas sobre os vales e montes que se debruçavam sobre o Lugenda, o seu ronco, demoníaco, quebrava a monotonia e sossego à família de Lumi. Mas Lumi aprendeu que os aviões do Ventor não faziam mal à sua família e, por fim, ele já se levantava num pulo, sacudindo-se todo, cabriolando, à passagem do Ventor e seus amigos e orneava num som semelhante às vacas da Assureira do Ventor, como que a dizer: «salvé Ventor, verdadeiro rei das savanas, amigo da minha "gente" e da nossa terra que se espalha por todos os vales do Lugenda»!

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A velhice, companheira da solidão. É na solidão que o búfalo perde o seu último combate

Nas margens do Lugenda, cheio de água pura nos tempos secos, ou nos lamaçais das suas margens nos tempos de águas revoltas provocadas pelas chuvas, os búfalos, companheiros do Lumi, sabem que devem permanecer sempre alerta, em defesa individual e do grupo, para tentar permanecer tanto tempo, quanto possível, a pisar os capins da savana.

Os anos foram passando e Lumi e os seus, tinham por adversários terríveis, os poderosos leões que, sós, em nada os atemorizavam mas, em grupos, eram demoníacos. Assim, desde pequenino, Lumi viu ficar para trás os menos capazes, por velhice, por doença ou feridos em lutas nupciais, tal como os bois fazem pelos vales da serra de Soajo. Sua mãe, que muito bem o soube tratar e ensinar, tinha-o preparado para a vida de terror que se vivia na savana. Mas sua mãe, já tinha deixado o grupo para sempre e Lumi recordava como ela tinha sido trucidada por um grupo de leões com os quais travara a sua maior luta de sempre em defesa daquela que lhe dera a alegria de se tornar o grande búfalo, "senhor" da savana.

Luta de morte - tudo à volta são leões

Foto tirada da Wikipédia de autoria de Caelio. This file is licensed under the Creative Commons Attribution-Share Alike 3.0 Unported license

Lumi cresceu, no meio dos seus, nessa luta permanente, entre os vários habitantes que, juntos, disputavam o seio da savana e, mais tarde, constituiu família que ajudou a alargar o seu grupo e com outros grupos acabaram de povoar, bem povoada, de belas manadas, as montanhas da região de Mecula e de todo o Lugenda que, em grandes manadas, como as "vezeiras", no Soajo, caminhavam ao sabor do crescimento do capim, como verdadeiras máquinas enfardadeiras!

Quando as máquinas do Ventor apareciam nos ares dos seus domínios as manadas constituídas por búfalos novos e outros mais atemorizados, corriam por baixo, por entre árvores e arbustos, deixando para trás um lastro de pó que subia, no ar, como o fumo de uma queimada!

Lumi, durante os seus anos de uma vida forte, caminhava sempre, junto dos seus, velando pela segurança de todos, estando sempre na frente da manada, na luta contra os leões esfomeados. O grupo do Lumi, numa terrível luta com leões, na defesa de sua mãe, chegou a isolar um leão de um grupo de 12 e desfazê-lo à cornada, lançando-o pelos ares de cabeça para cabeça, como se fosse uma bola, até o desfazerem todo. Esta foi a maior luta do Lumi! Mas a vida, na sua caminhada pelo tempo, prega-nos partidas a todos e Lumi não foi excepção. A velhice começou a apoderar-se de Lumi e, nas suas pernas, começou a faltar-lhe a força de outrora. Começou a ficar para trás, isolado, tentando apanhar mais umas ervas, deixando de acompanhar a manada, como sempre deveria ser feito. A velhice é meio caminho para o isolamento, para a solidão e, desta, para a morte.

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Mais um pouco e apanhámo-lo

Faltam as forças e com elas a vontade de prosseguir nos mesmos trilhos da vida e isso leva a que um grupo de leões cerque o Lumi e não lhe dê oportunidade de fuga porque, à sua volta, estava a força da morte constituída por 10-12 leões e as suas pernas já não podiam partir para as lutas de que sempre tinha feito parte para salvação de todos. Agora, Lumi, estava só!

Lumi tenta defender-se à cornada, mas este gesto que obriga os leões a um movimento permanente, também o vai cansando. De repente um leão salta-lhe para cima do lombo e começa a morder-lhe a coluna, outro agarra-lhe o rabo, outros vão mordendo por onde podem e, as últimas forças das pernas do Lumi são para se manter de pé, não se deixar cair porque, logo que caia, tudo terminará! Lumi consegue berrar alto pelos seus companheiros e, dois deles, filhos do Lumi, voltam para trás, em direcção do chamamento e vêm Lumi, de pé, com seis leões agarrados a ele e outros tantos a tentarem tomar posição.

Os dois búfalos investem furiosamente sobre os leões, enquanto outros se aproximam. Os leões debandam espavoridos e o velho Lumi a sangrar por vários pontos do seu corpo, sem nunca ter caído, não tendo dado chances de lhe agarrarem a garganta, tenta ainda investir contra os leões, mas mal se mexe. Os dois filhos e outros amigos levaram-no a tentar apanhar a manada e os leões, já cansados, ficaram para trás a vê-los partir.

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Quando no chão, já pouco ou nada há a fazer

Lumi foi metido no meio da família e dos amigos mas, o calor apertava e, ao cair da tarde, têm de ir beber água às margens lamacentas do rio Lugenda. Descem todos rumo ao rio e empanturram-se de água. Sede saciada, preparam-se para partir mas o grupo dos leões acompanharam-nos ficando na sua retaguarda, deitados, a vê-los beber. Sai tudo da água e tomam o seu rumo mas, na saída dos últimos, estava o Lumi.

O Lumi tinha dificuldades em sair da água. As pernas estavam atoladas nos lamaçais, continuava a sangrar das dentadas dos leões e o seu corpo tornava-se cada vez mais pesado. Quando os últimos búfalos estavam a sair da água, os leões continuavam com o olhar no Lumi.

Alguns búfalos voltam atrás para ajudar o Lumi, mas ele não tem forças para sair. Um búfalo investe sobre os leões, outro segue-lhe o encalço e outros preparam-se para lhes seguir o exemplo, os leões que eram muitos fogem, mas duas leoas intrépidas entram, água dentro, e atacam o Lumi dentro de água pela última vez. Lumi sem forças e com as pernas presas nos lamaçais, não aguenta o impacto e cai. Uma leoa ferra-lhe os dentes na grande garganta e a outra segue-lhe o exemplo e, Lumi, debate-se, mas preso no lamaçal pisado, cheio de buracos, nada consegue fazer.

Foto tirada da Wikipédia de autoria de Corinata. This file is licensed under the Creative Commons Attribution-Share Alike 3.0 Unported license

Morte de uns, satisfação de outros. É este o lema na savana onde a luta é atroz. Na savana, até os mais fortes caem nas garras dos mais fracos. Apenas é necessário saber aguardar o timing

Os búfalos que foram atrás dos leões regressam, olham a água e vêm que já nada conseguem fazer pelo seu velhadas. Enquanto a sua veia jugular se esvai em sangue, Lumi ainda os vê quando o branco do seu olho começa a tomar posição sobre a pupila negro-castanha. Ele olha as árvores da margem, olha os amigos e vê, pela última vez, o céu azul daquele que tinha sido o seu mundo. No seu último suspiro ainda terá dito: "adeus companheiros"!



O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral