Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

O Ventor e a África

Sonhando com o Passado, o Presente e o Futuro da África

O Ventor e a África

Sonhando com o Passado, o Presente e o Futuro da África



Deixem passar o T-6



AB6


Em áfrica, tudo é grande e belo. Podem ver aqui o meu menu africano


O Ventor e a África ...

... foi a Grande Caminhada do Ventor por África

O Ventor caminhou em África ...

... em Tempo de Guerra, continuando a viver as memórias dessa parte da sua Grande Caminhada



Um PV2. Havia destes no Niassa, em operação. Bom dia Tigres onde quer que estejam


26.04.05

Chegada a Lourenço Marques


Quico e Ventor

Com a partida do meu amigo Apolo, rumo a Ocidente, o navio Niassa, devido às informações meteorológicas que lhes chegavam, foi obrigado a lançar âncora no Oceano Índico a poucas milhas da Baía do Espírito Santo que, estaria, segundo as informações da costa sul Moçambicana, num grande pandemónio. Ficamos por ali algum tempo que já não recordo mas foi entre duas a quatro horas, o tempo que durou a tempestade de monções que caiu sobre nós e, pelo menos, sobre o sul de Moçambique e parte da África do Sul. Por fim, lá pelo fim da tarde, foram dadas ordens para o navio Niassa avançar, pois a barra da entrada para a Baía do Espírito Santo estaria em condições de receber o Niassa e o seu recheio. Homens e carga.

 Mapa de Moçambique, obtido pela NASA

Lá fomos nós, rumo à bela Baía com águas alouradas da intervenção do tridente do meu amigo Neptuno que tinha revolvido o areal para permitir a entrada do Ventor e da sua gente. A tempestade tinha sido forte e o acesso da Baía de Lourenço Marques ao Índico estava diluviano, embora o termo não se justifique que não seja pela cor das águas e alguma revolta que o tal Adamastor lhe incutiu, revoltando as águas, julgando, com isso, chatear o Ventor.

Imagem de satélite de Maputo (ex-Lourenço Marques) e da Baía do Espírito Santo 

Dançando um pouco, na crista da onda, o navio Niassa afoitou-se ainda com dia, a entrar no estreito do acesso à Baía onde a ondulação das águas revoltas mais pareciam gestos de saudação daquele nicho de espaço, que tinha sido deteriorado pelo nosso irrequieto Adamastor que caminhou sempre à frente do Niassa para fazer uma espera no local onde o Ventor devia entrar em águas azuis e não em águas revoltas e sujas pela revolta do areal, lá por baixo. Tudo bem até o Niassa passar o centro da Baía. Depois, quando navegava preparando-se para seguir até ao molhe onde iria encostar, todos começamos a ouvir, uma de duas coisas: ou o navio Niassa a roçar no areal da baía ou o ronco do Adamastor todo chateado por não ter conseguido os seus intentos. As sereias a cantar, com som tão roncoso, não eram!

Aquele som diabólico vindo das profundezas da Baía metia o seu respeito. De repente e já de noite, apercebemos que não era o Adamastor mas sim o navio Niassa a gritar com o areal para se desviar do seu caminho. Mas o areal tinha sido encostado nessa ponta da Baía, pelos ventos monçónicos furiosos comandados pelo Adamastor, com cujo trabalho conseguiu encalhar o Niassa, mesmo nas barbas de dois navios mercantes soviéticos, no meio dos quais, o Niassa iria encostar.

Para mim, os navios mercantes soviéticos não eram surpresa porque sabia através de um amigo da Nazaré que trabalhava numa empresa inglesa de estiva, em Lourenço Marques e já me tinha dito que isso, por ali, era o pão nosso de cada dia. Mas a meu lado, vi alguns companheiros de caminhada estupefactos por esses navios não chegarem a Lisboa, salvo autorizações muito especiais, quando o rei fazia anos, mas ainda por cima, nós não tínhamos rei!

De repente, dois potentes rebocadores instalaram-se junto do navio Niassa e começaram a utilizar toda a força que tinham para retirar o Niassa de um banco de areias que o velho Adamastor mandou colocar naquele sítio pelos ventos monçónicos. Mas como isso não era suficiente, uma vos gritou: "todos os que couberem coloquem-se na proa do lado direito do barco para conseguirem concentrar peso nessa área e ajudar os rebocadores. Uma mole humana, como sardinhas em canastra, posicionou-se no local indicado e, com o nosso peso e a força dos rebocadores, o Niassa voltou a gemer. Por fim nos 10 minutos do dia seguinte, meia-noite e 10, julgo eu, ou 10 para a meia noite, não tenho a certeza se 10 minutos antes se 10 minutos depois, lá encostamos nós entre os dois carregueiros soviéticos.

 

Lourenço Marques - Av. Central, em 1905

A noite onde era esperado caminharmos pelas ruas da bela cidade de Lourenço Marques, acabamos por não sair pois tornara-se tarde para isso. A previsão da chegada com o atraso originado pela tempestade e a espera para o Niassa entrar na baía foi de horas. À hora do lanche ou, o mais tardar do jantar, deveria andar tudo a caminhar pelas avenidas de uma cidade que todos desejávamos conhecer.

A tormenta, se assim preferirmos chamar-lhe, durou horas e eu, que levava Lourenço Marques pintado no meu cérebro, não estava preparado para tanta espera. Quando comecei a ver a baía do Espírito Santo, faltava o meu amigo Apolo e as luzes que via eram as mesmas que conhecia por aqui. Pouco mais estaria no meu cérebro que o mapa e nem sequer tinha a opinião do Major Costa que, apesar de conhecer Lourenço Marques, ficara apaixonado por Luanda e pela sua Baía. Mas tinha outras opiniões!

 
Monte Gurué, na Zambézia, zona de plantações de chá onde o Ventor perdeu muitas horas a tentar estudar zonas de todo o Moçambique, especialmente, esta. Não que tivesse algum interesse no seu chá, mas em Moçambique no seu todo 
 
Pelas perspectivas com que fiquei, à medida que o Niassa ia afastando as águas agitadas, penetrando rumo à bela cidade, já mesmo sem a presença do meu amigo Apolo, tudo aquilo me parecia um encanto. Comecei então a recordar as conversas que, cerca de 5 anos antes, tivera com gente que viera a Lisboa passar entre um e dois meses de férias e me diziam: "Ventor, vais ter de conhecer Moçambique. Mal que chegues lá, eu arranjo-te emprego"! Nessa altura ainda eu não sonhava com a Força Aérea. Foram pessoas simpáticas, uma família constituída por gente da Nazaré, o homem e de Braga, a mulher e mais o seu rebento moçambicano, com idade entre os 18 e os 24 meses. Foram eles, mais outros familiares e amigos que indutaram no meu cérebro um interesse profundo por Moçambique. Por isso, quando parti para Moçambique, já tinha vários mapas, quase perfeitos, de tudo aquilo.
 

 Esta é a cidade que eu encontrei e deixei para sempre, em Fevereiro de 1970 - Lourenço Marques
 
Foto de Hansuelli Krapf. This file is licensed under the Creative Commons Attribution-Share Alike 3.0 Unported
 
Mas, o terrível Adamastor, estragou a minha entrada em Lourenço Marques. Depois do encosto do Niassa, já fora de perigo, foi só dormir e o encontro com o solo de Moçambique, ficou para o dia seguinte. Da proa do Niassa observei os barcos russos, de onde os seus tripulantes assistiram impávidos e serenos ao resgate do Niassa, da armadilha preparada pelo Adamastor. "Boa noite, LM (Lourenço Marques)"!
 
 


O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

18.04.05

Solidão Absoluta


Quico e Ventor

Estávamos no ano de 1968, em Marrupa, no centro Norte de Moçambique - contou o Ventor.

«Tínhamos decidido, à noite, antes de nos irmos deitar, eu e outro amigo cabo-verdiano, levantarmos-nos cedo e irmos fazer uma caçada.  Assim foi. Levantámos-nos cedo mas, a escuridão era total e o nevoeiro quase. Fomos abrangidos pela excitação, mas estava decidido! Preparamos as armas, chamamos os cães e partimos para o desconhecido».

O Ventor prossegue  a narração:

«No nevoeiro escuro, o silêncio era companheiro do capim e irmão da madrugada! O cheiro do mato misturado com o odor da presença dos animais selvagens, era a campainha de alarme no meu cérebro. Ao meu lado, os meus companheiros da caminhada perscrutam tudo que possa servir para a acção defensiva.

Os meus companheiros, naquele momento, eram o meu amigo e colega cabo-verdiano, o Melo, e estes três inesquecíveis, o Bolinhas, o Zorba e a Diana, cães rafeiros, mas amigos a valer!

No silêncio da selva, a escuridão de um nevoeiro denso, cerrado, escuro como breu, no começo da aurora, ainda indecisa mas já com indícios de marcar presença. O capim era um gigante que terminava bem acima das nossas cabeças e, nas suas entranhas, vivia o terror!

As espingardas estavam colocadas em posição de combate e os cães pisavam-nos os calcanhares. O cheiro a "bravo" indiciava possibilidade de algum perigo e a humidade matinal poisava lentamente sobre os nossos bigodes, pestanas e sobrancelhas, em gotículas redondinhas que faziam lembrar bagos de chumbo ligados por magnetismo a uns araminhos de aço.

A selva não era linda, porque não se via, o capim era uma massa uniforme em forma de palha quase seca e nele deixávamos um túnel que se abria à nossa passagem à medida que o baixávamos colocando as botas de lado para o pisar de seguida e caminharmos sobre ele. À nossa volta, víamos nada e, só ouvíamos silêncio.

Lembrei-me então de "The Sound of Silence" do Paul Simon.

Hello, darkness, my old friend,

I've come to talk with you again, . . .

Então, enviei dois tiros de G-3 para o ar e, de repente, parecia que o mundo desabava sobre nós. Os cães sentiram-se mais inspirados e nós, apenas com dois tiros e o "hello darkness" na mente,  sentimos-nos mais seguros a aguardar que Apolo brilhasse sobre a lângua da savana que estaria por ali, algures, escondida no nevoeiro da madrugada.

Continuamos a caminhar pelo romper do dia e entre o nevoeiro, mas não podíamos assobiar ao silêncio porque após aqueles dois estrondos  nós necessitávamos de caminhar, lado a lado, com ele.

gasela.jpg

A linda visão de uma gazela a comer

À medida que o tempo passava, a luz começou a progredir perante farrapos de névoa que beijava a altura do capim mas, aqui e ali, abria laivos de pinceladas sobre o verde das árvores e o dourado do capim. Sem rumo, completamente à deriva, continuamos na direcção escolhida e acertamos no trajecto. Encontramos a picada e, quando me apercebi onde estava, entramos num carreiro que nos levava ao poço que nos abastecia o Aeródromo de água. Nesse instante, já conseguíamos observar o nosso amigo Apolo de escopro e cinzel a despedaçar a névoa mais alta e, por razões de segurança, trepamos para cima do poço, onde nos deixamos ficar de armas em riste.

gaselas.jpg

Gazelas na lângua

Apolo continuava o seu trabalho de "erosão" e já nos espreitava por aqui e por ali e, numa dessas janelas abertas, avistamos uma gazela. O meu amigo ripou da arma e apontou e, no momento do disparo, uma fracção de segundo, mais cedo, eu, com o cano da minha arma, levantei a dele fazendo com que a função do tiro servisse apenas de arremesso contra o silêncio. Ao estrondo de mais aquele tiro avistámos, lângua abaixo, um grupo de gazelas procurando onde se refugiar, fugindo ao barulho, exactamente o inverso da nossa caminhada anterior, fugindo ao silêncio!

Acolitado pelo silêncio e pelo barulho, decidi, num ápice, que nada devia morrer ali!

Hello, Darkness!!!!



O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral