Tantos combates!!!

 

Amigos, pedi ao Ventor para me falar da guerra no Ultramar, no caso, Moçambique, e ele não deixou de me falar das suas grandes batalhas.

Depois de andarmos a rebolar pelo chão da sala e de o ouvir, atentamente, arranjei maneira de vir até aqui falar-vos desses "Tempos de Guerra".

 

Oiçam só!

 

«Pois, Quico, tempos de guerra!

 

Lembro-me bem dos tempos que fiz guerra a inimigos visíveis e invisíveis e foram todos os tempos em que o cheiro a pólvora era o cheiro que predominava. Os inimigos eram mais que muitos mas, quase sempre, não eram visíveis à vista desarmada, nem de dia, nem no escuro da noite. Todos eles usavam as técnicas do "bate e foge" e esperavam, pacientemente, a sua vez de caírem sobre a presa ou de bruços, no solo da terra amada, ou terra estranha, conforme os casos. Por vezes, os inimigos tinham muitas facetas, mesmo aquelas que, de repente, não são imaginadas!

 

Pois vou contar a história dos mais temíveis inimigos que muitos de nós (todos?), tivemos em África, no caso, por terras de Moçambique.

 

Quando cheguei a Nova Freixo, uma vila bastante linda e progressiva naqueles confins moçambicanos, em pleno mato, não se notavam os inimigos esperados e nós, os que por ali andávamos, estávamos instalados no Aeródromo Base 6 de apoio recuado às linhas da frente, no Distrito do Niassa, só ele, bem maior que Portugal Continental. Cantávamos por lá, mentalmente, uma espécie de canção que os americanos cantaram quando partiram para a Defesa da Europa Democrática das guerras totalitárias de umas outras gentes que eram apodadas de "bochs". - «Over there! Over there»! Isto na primeira Guerra Mundial, muitos anos antes. Ora nós também chegamos ali com o nosso "over there", na mente.

 

 

O nosso hangar, em Nova Freixo. Ele serviu de nossos aposentos durante bastante tempo. Era lá dentro que dormíamos, homens, aviões, bombas, melgas, percevejos, pulgas, ... !

 

Assim era! Dali, nós partíamos sobre o grande Niassa e, no "over there" da nossa imaginação, caminharíamos direitos a perigosos "poços da morte" das zonas mais perigosas das lindas terras do Niassa! Mas, antes, tínhamos um treino! Aprender a conhecer todos os inimigos com que deparássemos. Combater as doenças, como o paludismo, aprender a viver as agruras da África negra e aprendermos, também, a respeitar todos os inimigos que, a qualquer momento, poderíamos enfrentar por aquelas paragens.

Então vou falar-te desses inimigos devastadores - melgas e percevejos!

 

Nas primeiras noites que chegamos a Nova Freixo e durante os dois meses que lá permaneci, até à minha partida para Marrupa, tivemos de partilhar o Hangar com os aviões e o armamento. Havia um grande Hangar com dois grandes portões corrediços por onde entravam e saíam os aviões. Lá dentro dividia-se em vários espaços. No grande espaço central a seguir aos portões, ficavam alguns aviões. Lá mais ao fundo, ficavam as nossas camaratas. À esquerda ficavam as casas de banho e outras coisas e, à direita, ficavam os serviços de manutenção e de Armamento (a «Academia Bruno» de que te falarei um dia).

 

Homens a um lado, aviões a outro, bombas a outro! Mais para o interior do arame farpado trabalhava-se, numa grande azáfama, na construção de novas camaratas que viriam a tornar-se em verdadeiros Sheratons para a rapaziada. Reconstruía-se ou alargava-se a cozinha, alargava-se o nosso novo e belo "restaurante", planificava-se mais um Bar, enfim, um autêntico progresso de crescimento no alargamento da ocupação militar que, à época, se julgava eterna.

 

 

Este é um dos muitos mosquitos que é amaldiçoado neste mundo - o mosquito do Nilo (já chegou ao Algarve, lembram-se?)

 

Não havia tiros, mas o pior estava junto de nós. Eu e todos os outros, passamos noites inteiras à estalada nas melgas. Elas pareciam-nos autênticos Scuds a cruzarem o deserto, zzzzzzzzzzzz, picando em direcção à nossa cabeça e nós, pobres coitados, esbofeteávamos nelas e na parede. Meio a dormir, meio acordados, limitávamo-nos a dizer - toma!!!!

Eu cheguei a pensar, perante a nossa impotência que, àqueles bichos, a morte causada por uma chapada desprezível seria a nossa grande afronta a animal tão ruím! ZZZZZZZZ ... Praz!

 

Mas não era tudo! Havia mais. Percevejos! Já ouviste falar? Não? És um felizardo! A tua guerrinha limita-se a duas ou três pulgas que a tua amiga Tara trás cá para casa, até o Ventor dar cabo delas com uns remedinhos que inventam por aí. Nós, lá, fazíamo-lo com JP1 e C-130, combustíveis de helicópteros e de aviões.

 

 

Outra espécie de mosquitos

 

Pois! Lá vinham eles Hangar dentro, rastejando, olhando de lado, com aqueles olhos vesgos, a figura dos aviões e pensando que era por causa daquelas máquinas imponentes que, eles, reles animais dos capins, fariam grandes festins à custa do gotejar do nosso sangue!

Coça daqui, coça dali, vira e revira, pelo ar melgas, pelo chão percevejos! Como derrotar estes devassos? Remédios? Dera-os Deus! À chapada era impossível, já nos bastavam as melgas. Então que fazer? Fogo!!!! Para que raio o homem inventou o fogo?

 

Misturem JP1 com C-130 que dá um belo veneno para os matar! «O caraças! Eu trato-os»! Roupas e colchão fora da cama! Pá, pega nesse lado, vamos levar esta espécie de cama lá para fora. Recipiente com combustível, cama bem regada - fogo!!! "Eu também quero, eu também quero"! E assim por diante. Fogo!!!! Durante alguns dias ficávamos sem percevejos e, de quando em vez, fogo!!!! Derrotávamos parcialmente os nossos inimigos mas, por pouco tempo!

 

Tinha-me lembrado da Autobiografia da Raposa do Deserto - o Marechal, alemão, Romel, Comandante do África Corps que tinha lido antes. A mulher escrevia-lhe e pedia-lhe que tivesse cuidado que se constava que os ingleses cada vez se reforçavam mais e, por isso, à medida que o inimigo dele se reforçava, ele iria ter mais dificuldades, etç. etç.

 

E ele respondia-lhe: "querida Lu, não tenho grandes inimigos por aqui! Tenho, realmente, um inimigo terrível, bem pior do que os ingleses e muito mais difícil de enfrentar e, até me parece que nunca seremos capazes de o levar de vencida - o percevejo"!

Mais ou menos isto e dizia também que o tenente "qualquer coisa", estava a travar a maior batalha da vida dele - a luta contra os percevejos. Queria regá-los com gasolina mas ele não podia permitir porque, gasolina para si, era melhor que ouro!

Eu lembrei-me disso e verifiquei que a gasolina sem nós, não teria significado. Por isso, ou chegava para queimarmos os percevejos ou, o melhor seria pegarmos as malas de volta, rumo a casa.

 

Grandes vitórias, pá»!

 



O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

publicado por Quico e Ventor às 12:04