O Navio Niassa caminhava rumo a Norte!

O Ventor observava as estrelas na escuridão da noite, sob o mesmo tecto do meu amigo Apolo e, escanchado sobre milhas marítimas, sabia que para lá desse horizonte que observava caminhando para norte, havia outros horizontes de sonhos para lá daquele que ele observava. Além de nomes já conhecidos dos seus estudos sobre o chão da guerra em Moçambique, ele recordava a Baía de Pemba, a foz do rio Lúrio que iria ser seu companheiro de caminhadas nas zonas das suas nascentes, ficava a foz do rio Messalo por cujas nascentes o Ventor também caminharia e, mais para norte, ficava a foz do rio Rovuma, que servia de fronteira entre Moçambique e a Tanzânia e que seria o limite, a norte, que o Ventor só chegou a ver do ar mas, mais lá para trás.

 

 

 Os barcos do Vasco da Gama, rumando a Norte protegidos pelos deuses

 

De repente o navio Niassa, muda de rumo! O Ventor sabia que estava na hora de mudar de rumo, sabia que estaria na hora de ver o seu amigo Apolo ficar para trás, no momento que o Niassa rumaria para Oeste e o seu amigo Apolo veria por baixo dos seus trilhos, a "caravela de ferro", que transportava o Ventor e seus companheiros rumo a bom porto.

 

A Baía era larga e comprida e o fim, o objectivo final, onde o navio Niassa iria atracar, ainda estava longe. 

 

 
Memórias
 
Mas o Ventor não pensava na lonjura da amarração do Niassa e preparar a sua descida sobre as terras do Norte de Moçambique. Ele sonhava! Sonhava com o belo Moçambique que estudara durante cerca de 8 meses, na Av. António Augusto de Aguiar, em Lisboa. Todos esses estudos foram avidamente acompanhados com grandes mapas militares de Moçambique, especialmente, a Norte. O Ventor tinha detalhado tudo para a terra que ele já tanto gostava, mesmo antes de a conhecer. Ele sabia, quando o Niassa voltou para Oeste que, a Norte, ficava Mocimboa da Praia, uma das portas da guerra, no Norte de Moçambique. Foi ali que, em 1917, Portugal colocou a primeira esquadrilha aérea de combate, em todo o Continente africano, em 1917-1918, na 1ª Guerra Mundial contra a Alemanha.
Moçambique foi, assim, o primeiro campo do combate aéreo, em todo o Continente Africano, contra a Alemanha.   
 
 
Canal de Moçambique e a velha ilha de S. Loureço, a actual Madagáscar
 
Enquanto caminhava no Canal de Moçambique, o Ventor sonhava com a Geografia e com a História, duas áreas que ele, nesses tempos, dominava bem. E, desde Lisboa, sonhava com o Niassa! Sonhava com o Niassa, sonhava com os Lusíadas, sonhava com o Canal de Moçambique, sonhava com Nacala e esse objectivo estava a ser atingido. Agora, à frente do Ventor, estava a Baía dos seus Sonhos. A Baía Fernão Veloso!
 
A quilha do Niassa continuava a abrir águas e prosseguia a sua caminhada rumo ao molhe do seu encosto. Depois de observar as belas águas desta Baía, as suas margens ao longe ou ao perto, com praias brancas de onde todos os seres observavam aquele pequeno monstro (o navio Niassa) carregado de almas que, choravam, no seu pensamento, tudo o que deixaram para trás.
 
O Niassa encostou no topo daquela sua curta caminhada pois, de seguida, regressaria ao ponto de viragem e recuperaria a sua rota, rumo a norte, ao local onde esteve concentrada a tal 1ª esquadrilha aérea da 1ª Guerra Mundial, em todo o Continente Africano. Isto, porque houve tempos em que, Portugal, caminhava na dianteira de muitos.  
 
 
Um camarão que podia ser do Porto de Nacala
 
Enquanto o Niassa encosta, o Ventor observa as águas da bela Baía de Nacala, a Baía Fernão Veloso. Os bichinhos de que muitos gostam, os camarões (os belos shrimps), apareciam à superfície das águas. A tropa arranjou um belo entretenimento. Deitava pedaços de pão na água e nuvens de camarões apareciam à superfície. Parecia que diziam: "olá, pessoal! Sabemos que têm o Ventor a bordo"!
Eles são amigos do Ventor! Eles sabem que pelo Ventor a sua vida teria um êxito diferente.
 
Nesse momento, de aglomeração dos camarões, um ronco rasga os céus. Era um avião Nord-Atlas que descia sobre o navio Niassa e, numa passagem baixa, dava as boas-vindas àqueles que viriam a ser seus novos Companheiros de Guerra.
Logo de seguida, vindo das alturas, rasgando os ares, o ronco a rasgar os céus, desta vez, um T-6 (Texano-6). Ele aproxima-se dos mastros do Niassa, o piloto sorri e acena. O Ventor observa o avião e verifica que está furado. Mais tarde, veio a saber que esteve debaixo de fogo de antiaéreas. mas o AB5 esperava-nos para quatro dias de calma, na nossa caminhada.


O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

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publicado por Quico e Ventor às 21:39