Lourenço Marques esperava pelo Ventor!

Lourenço Marques, a cidade dos seus sonhos, já sabia que ele chegara e, não tardaria muito, iria pisar o seu alcatrão, caminhar nas suas avenidas, beber das suas cervejas e, juntos, iriam viver sob o tecto de Apolo, dia e meio, que já voltara, todo chateado por, na véspera, ter abandonado o Ventor. Mas a vida é assim!

 

Depois da guerrinha das monções, de um Índico diluviano, durante a noite os deuses reuniram-se e, concordaram que aquela desorientação do Adamastor, não tinha sido boa ideia para chatear o Ventor.

Durante a noite, o navio Niassa tinha servido de berço para o Ventor que, sem querer saber de nada, dormia com a mesma segurança com que sua mãe o embalava nos seus tempos de menino, num outro berço. Levantou-se, observou a bela Baia do Espírito Santo, agora iluminada pela luz do seu amigo Apolo, voltou o seu olhar para a cidade e começou a imaginar como Lourenço Marques, o explorador de quem a cidade herdara o nome, teria vivido naquele belo sítio, séculos atrás.

 

 

Maputo de ontem e de hoje

 

O dia estava lindo! Apolo brilhava para alegrar o Ventor e toda a parte da cidade que se observava do porto, parecia sorrir para ele. Mas o Ventor não ia com o objectivo traçado para Lourenço Marques. A ponta da lança que o Ventor apontava era para o Distrito do Niassa, a ponta esquerda lá ao Norte de Moçambique, a mais de 2.000 km dali. Porém, ali, naquele momento, a lança não passava de Lourenço Marques. O Ventor aproximou-se da escada e, mais uma vez, observou a cidade. Por ali, nos seus horizontes, estariam as três famílias que ele conhecera em tempos passados. Uma durante alguns tempos e duas apenas durante cerca de um a dois meses. A confiança com eles não era grande e, por isso, não levava uma única direcção. Para o Ventor seria, chegar a Lourenço Marques, observar e avançar rumo a norte. A ponta da lança só seria enterrada no Niassa. Do cimo da escada do Niassa, o Ventor observava o seu novo mundo que acabara de alcançar e recordou-se das suas mobilizações para África, acabando por ir parar à 3ª Região Aérea, implantada ao longo de Moçambique, debruçado sobre o oceano Índico.

 

Recordou o Nº 21 da Av. António Augusto de Aguiar, em Lisboa e os mapas das guerras africanas que lhe passaram pela frente. Recordou a sua primeira mobilização para a Guiné. Não era o objectivo dos seus sonhos. A Guiné era pequena para a pedalada do Ventor mas, aceitou-o. Recordou a cara triste do Cap. Mota Santos, quase na idade da reforma, com a mensagem que o mobilizava para a Guiné, a Base Aérea de Bissalanca.

"Ventor, não foi mobilizado para a frente que gostaria"!

«Qual é Senhor Capitão»?

"Zona Aérea de Cabo Verde - Guiné".

«Não faz mal, fico mais perto de casa»! 

 

 

Baía do Espirito Santo ou a Delagoa Bay com que os ingleses sonhavam 

Foto da Baía do Espírito Santo tirada pela NASA

 

Algum tempo depois, talvez um mês, lá vinha o Capitão Mota Santos com mais uma folha de papel na mão.

"Ventor foi desmobilizado"!

«Isso só serve para me fazer perder tempo, Senhor Capitão»!

Observando Lourenço Marques, recordava como o Capitão Mota Santos estava preocupado com ele, sabendo que ele estaria prestes a arrancar para uma das frentes africanas e sabendo que aquela, onde se encontrava, era a sua, a que ele desejava.

 

Mais tarde, entrando no gabinete do Major Costa, ... "Ventor, Ventor, ... ! Você foi mobilizado para a Base Aérea 9, em Luanda. Sempre será melhor que Bissalanca"!

Diz o Major Costa: "Para morrer, todos os sítios são bons, Senhor Capitão! Mas o Ventor não vai lá para morrer. Ele está bem protegido. O seu amigo Apolo e o Senhor da Esfera não o vão abandonar"!

Um sargento disse: "que Deus te acompanhe, Ventor. Luanda é uma bela cidade. Já lá estive e está-se tão bem como aqui"!

Continuaram a "esfarrapar" as frequências dos Comandos Estratégicos da NATO. O SACLANT, em Norfolk, na Virgínia, USA, e todos os outros. Passavam pelas mãos do Ventor mapas a que ele não ligava, só os mapas de Moçambique o conseguiam prender por mais tempo e terminava sempre com os olhos nas Montanhas do Niassa.

 

"Ventor, se você tem preferência por Moçambique, eu ainda tenho alguns amigos e posso tentar que vá lá parar" - disse o Major Mota Martins. "Luanda é melhor, alvitra o Major Costa"!

A roleta só lhe faz perder tempo. É-lhe indiferente para onde irá, embora não negue que preferia Moçambique. Que zona de Moçambique? Alguém perguntou. «O Niassa», disse ele. «Também vos posso dizer que preferia cozido à portuguesa para o almoço e já não vou a Monsanto, porque é peixe»!

 

Dias depois, desmobilizado, outra vez!

Lá vinha o Cap. Mota Santos com a mensagem na mão. Eu tinha tanto mais para fazer que nem dava conta do meu serviço. O Capitão Mota Santos, responsável pela Secretaria da DSCTA (Direcção dos Serviços de Telecomunicações e Tráfego Aéreo) encarregava-se de o ajudar e parecia mais preocupado com o Ventor do que ele.

Por fim, lá veio a mobilização definitiva!

 

 

Maputo, uma cidade de sonhos, a velha Lourenço Marques, cidade das acácias, Princesa do Índico 

 

Quem deveria de ser? O Capitão Mota Santos com o papel na mão, arrancado da teleimpressora, chegou espavorido e todo contente com um sorriso de orelha a orelha. "Ventor, o seu Senhor da Esfera fez a sua vontade"!

O Ventor sorriu, pegou no papel, leu-o e disse a todos: «acho que nunca mais arranjarei melhores amigos que vocês. Mas, agora que a Força Aérea me levou a África duas vezes e me trouxe, e que pela terceira vez já me põe a caminho, desta vez, rumo a Moçambique, se me voltar a desmobilizar, vou ser eu a mobilizá-la a ela. Até aqui aceitei tudo e, daqui em diante, não irei aceitar mais nada. Se for desmobilizado, não voltarei mais ao Nº 21 da António Augusto de Aguiar. Vão ter de ir à minha procura».

"Não faça isso, disse o Major Mota Martins, o melhor de todos aqueles amigos. Não estrague a sua vida"!

 

«Daqui em diante - disse o Ventor - «tudo vai depender do Estado Maior da Força Aérea e da mensagem que vier da Direcção dos Recursos Humanos, os nossos vizinhos da porta do lado». Era o Nº 23.

 

Pensava nisto tudo, sorrindo, enquanto do cimo das escadas do navio Niassa, observava Lourenço Marques, ao mesmo tempo que ia iniciar a descida. "Vamos", diz o seu amigo algarvio. "Acompanho-te até à Av. da República"!



O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

publicado por Quico e Ventor às 16:09