Após a saída de Luanda, deixando para trás a sua bela baía, aquele belo anfiteatro da parte baixa da cidade e a célebre Fortaleza de S. Sebastião, em cujo chão trepidavam as botas cardadas dos nossos pára-quedistas, continuamos a afundarmo-nos mais, nos calores estivais do Atlântico Sul.

 

Saídos da baía e já virados a sul, ao nosso lado esquerdo, a bombordo, se preferirem, situava-se o Continente Africano e, á nossa direita, ou a estibordo, toda a largueza do Atlântico profundo. À medida que a quilha do Niassa cortava as águas frias da corrente de Benguela, para trás ficava o Equador, a saudade, tudo! Também ia ficando Angola, o Sudoeste Africano (Namíbia), a costa atlântica da África do Sul e calculávamos que, ao virar da esquina, lá mais ao fundo, torneando o Cabo que tinha sido, em tempos, o  Cabo das  Tepestades e depois, o Cabo da Boa Esperança, por ali, algures, esperaria o Adamastor.

 

 

Foto tirada da Wikipédia de autoria de Joseolgon.  A utilização deste ficheiro é regulada nos termos da licença Creative Commons - Atribuição - Partilha nos Mesmos Termos 3.0 Não Adaptada

 

Entretanto, à medida que realizávamos esse troço da nossa caminhada, dentro do navio Niassa continuava a nossa saga diária. Comer, dormir, jogar, ler, olhar o mar, beber a famosa cuca das nossas gentes angolanas e, já se tinham ido as frutas penduradas, os chouriços, tudo, menos a cuca e a bolacha baunilha que, como suplemento alimentar, continuavam a fazer parte da minha caminhada.

 

De resto, para ocupar o tempo, lá iam continuando os alertas do Niassa para corrermos a colocar os coletes salva-vidas, os coletes da esperança caso a coisa desse para o torto. Tomar banho nas profundezas do Atlântico de norte a Sul, não seria a mesma coisa que tomar banho nos pocinhos de Adrão, nas praias da Caparica, de Carcavelos, ... e, o colete salva-vidas servia também para nos dar um certo aprumo psicológico. As orcas que nadavam ao lado do Niassa, na corrente fria de Benguela e rumo à cidade do Cabo, escangalhariam qualquer arranjo psicológico que nos traria o célebre colete laranja e mais acreditaríamos na grande caçada que as orcas, organizadas em grupo, fariam se tivéssemos de mergulhar nessas águas com colete ou sem colete. Nem nos valeria pedir o tridente ao meu amigo Neptuno para, com ele, espetar as orcas.

 

Sempre que espreitava as orcas, via a maioria delas sempre a bombordo, isto é, entre o navio Niassa e o Continente africano. Até parecia que elas saberiam que, se tivéssemos de ir ao mar, a rota escolhida seria rumar para terra, o lado preferido delas. Seria pensado por elas ou mera coincidência?

 

A partir de determinada altura, próximo da viragem para o oceano Índico, começamos a avistar a Montanha da Mesa (Table Mountain), a tal que me tinha roubado algum tempo quando eu me dedicava aos meus estudos de geografia africana. Junto com ela, começou a instalar-se mais afincadamente na nossa memória, a sempre presente ameaça do Adamastor. Porém, o mar continuava sereno, os dias continuavam lindos com uma visibilidade de 40 km ou mais, pois dava para, na companhia do meu amigo Apolo, observar bem os contornos das costas sul africanas.

 

 

O Cabo da Boa esperança

 

Bartolomeu Dias, foi o primeiro europeu a passar este Cabo a que chamou o Cabo das Tempestades mas, D. João II, achou melhor rebaptisá-lo de Cabo da Boa Esperança. Ele acreditava que, rumando para Leste e, uma vez que Bartolomeu Dias, já tinha seguido para leste até 800 km deste Cabo, restava a Esperança de haver continuidade até alcançar o desejo da época. Chegar à Índia! 

 

O Adamastor não se mostrava. Estaria encostado à sombra das rochas com receio do meu amigo Apolo e com a presença do Ventor. 

A mim fazia-me confusão ele esconder-se pois conhecia pessoas que viajavam de Moçambique para Portugal e vice-versa e não conhecia ninguém que não tivesse tido problemas com o Adamastor. Pelo que sabia, a passagem do cabo era terrível para todos e estava a ser uma maravilha para mim.

Com o tempo e com algum raciocínio, comecei por perceber que ninguém vinha para Portugal no Inverno. Portanto, para apanharem cá o verão, viajavam na nossa plena Primavera, caminhando nos Outonos africanos. Na nossa viagem, caminhávamos, por lá, em pleno verão.

 

Ao passar em frente da cidade do Cabo, observando-a do largo, um colega muito observador, de olhos fixos em mim, diz: "oh, Ventor, estás mais encarnado que um tomate"!

Teria de estar! As minhas caminhadas eram feitas no estrado do navio Niassa, sempre ao sol e a observar as costas, as orcas e não só. O meu campo de exercícios era da ré à proa e vice-versa, sempre a observar qualquer coisa, a bombordo ou a estibordo e, mesmo que não dê para acreditarem, quase sempre só, de noite ou de dia. Chegava mesmo a ficar a observar a bandeira durante tempos sem fim, drapejando ao vento e a desfazer as linhas que a constituíam. Não fosse isso e estaria a ler!

Passei a mão pela testa e mais parecia uma cobra a largar a camisa. A pele saía enroladinha, tal como quando compramos uma carpete e a levamos para casa toda enrolada. Tudo isto, frente ao Adamastor! O meu amigo Apolo queria-me ver bem impressionado ao abandonar o Atlântico e ao penetrar no Grande Oceano Índico.

 

 

Também o Bartolomeu Dias, o Vasco da Gama e outros, já lá tinham passado, centenas de anos antes pelo Cabo da Boa Esperança

 

Foi nesse momento que, agarrado às amparas do navio Niassa, observando as águas sem saber se ainda estávamos no Atlântico ou se já navegávamos no Índico, vi um corpo colossal aparecer à superfície da água, uma espécie de monstro de Loch Ness. O mesmo estilo de imagem. Um corpo cilíndrico, tipo cobra gigante com cor de truta salmonídea, com muitos metros de comprimento mas, sem ver ou identificar uma cabeça ou um rabo. Imaginem que sai à superfície do mar um colosso em forma de cobra em que só vemos o cilindro, sem aparecer cabeça nem rabo. Esses mantiveram-se debaixo da água. Pelo menos, não tive tempo para os identificar.

Procurando vídeos e fotos sobre animais marinhos, nunca vi nada semelhante.

 

 

A cidade do cabo e a Montanha da Mesa como vista da rota naval 

 

São lindas as costas da África do Sul, vistas do mar largo. Navegando no Oceano Índico, continuamos a observar a beleza das cidades costeiras sul-africanas e as suas enseadas, especialmente Port Elizabeth e Durban (a antiga cidade de Natal).

Até um pouco a seguir ao largo da cidade do Natal, rumando à cidade de Lourenço Marques, o meu amigo Apolo nunca me tinha abandonado. Mas, chegados ali, disse-me apenas isto: "Ventor, agora estás por tua conta. Caminhei contigo até passarmos o Adamastor. Sempre que pudermos, estaremos juntos nas horas difíceis. Mais um pouco e estarás nas tuas águas. Agora, tu rumas para Leste e eu para Oeste"!

 

Começamos a separar-nos, nesse dia, desde que saí de Lisboa em que ele me acompanhava de manhã à noite. Mas logo que Apolo abalou, pela primeira vez na minha vida, iríamos enfrentar as monções do Oceano Índico. O Adamastor, aquele falsário, afinal, não estava escondido nas rochas das costas sul-africanas. Ele ameaçou-nos em pleno Índico, a algumas milhas da Baía do Espírito Santo, em Lourenço Marques.

 

Antes: Entre o Equador e Luanda

A seguir: Chegada a Lourenço Marques

 



O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

publicado por Quico e Ventor às 13:10