Mais uma etapa na nossa caminhada rumo a Moçambique

 

Entrado mar dentro e, perdido o cabo mais ocidental da Europa, na bela serra de Sintra, no meio da longínqua bruma, esfumado todo o nosso mundo, ficamos apenas nós, cerca de 1.800 homens, o Niassa, o céu e o mar. Ah! Mas sem esquecer os golfinhos que, pareciam adivinhar que, aquele barco, apenas transportava sonhos.

 

No entanto, saídos do convés e deixados os golfinhos saltando e procurando dar ânimo àqueles que continuavam a observá-los, como eu, feita a entrada no porão, haviam aqueles que já, com as saudades a miná-los, escreviam às suas gentes, para colocar no correio, à chegada a Luanda.

 

Dali, acabados os suspiros daqueles que ainda mal acreditavam no que lhes sucedia, até à linha do Equador, as profundezas do Niassa, tornaram-se num autêntico casino onde os jogos eram o caminhar na esperança da continuidade do passado de muitos que nada mais poderiam fazer.

 

Também eu, depois de me encantar com os golfinhos, desci do convés, observei diversas jogatanas e, deitei-me sobre a cama a ler um livro do Descartes, o "Dez Cartas", como eu lhe chamava!

 

Perdidos, naquele submundo, lá fomos, jogando, comendo, lendo ou dormindo, pois o cansaço originado naquela euforia, desde o Natal de 1967, até 4 de Janeiro de 1968, fora intenso. Só encontramos mais uma rejuvenescida euforia ao chegarmos à linha imaginária do Equador.

 

Saídos da paragem equatorial, naquele belo dia de Janeiro, virados a sul, quatro horas depois, o Niassa lá seguiu aprumado, rumo a sul, com a bandeira verde-rubra a esfarrapar-se toda, vassourada pelos ventos que rondavam o mastro.

 

Ao proximarmos-nos de Luanda, sentíamos a curiosidade de observar-mos a sua baía de sonhos de que muitos de nós já ouvíramos falar. Ali estava ela, à frente do Niassa e, na sua frente, a baixa de Luanda, encostada ao Planalto, por onde a cidade prosseguia mas que, nós, estávamos longe de imaginar.

 

Foi então que me recordei das conversas que tinha com o Senhor Major Costa e outros companheiros da DSCTA, na Av. António Augusto de Aguiar. Dizia ele: "Fox, no mundo só há três maravilhas! A cidade de Rio de Janeiro, a Catedral de Chartres e a Baía de Luanda". 

Cada um tem os seus gostos e o Major Costa tinha os dele. Mas, a verdade, é que eu estava, então, ali, a observar uma das suas maiores belezas deste mundo. A célebre Baía de Luanda.

 

 

 

 

Luanda - foto tirada da Wikipédia de autoria de Paulo Céar Santos

 

A Marginal de Luanda é mesmo linda. Acredito que nesta baía e nesta cidade, batem forte e conjuntamente, os corações de angolanos e portugueses

 

 

À medida que o Niassa sulcava as suas águas, os meus olhos tentavam perscrutar tudo que estava ao meu alcance. À nossa  esquerda a cidade, lá no topo, a Fortaleza de S. Sebastião.  Eu apreciava a beleza da Baía, da Av. Marginal e da parte da cidade que vinha dos lados do Planalto e se debruçava sobre a baía. No entanto, o que nós mais queríamos era esquecer o arroz "mofoso" e matar a fome.

O Niassa atracou no cais e logo nos deram autorização para pisarmos a terra firme de Angola. Era Luanda! A capital da parte da mãe negra que estávamos habituados a ouvir gritar: "é nossa"!

 

Saídos do Niassa com uma enorme vontade de comer algo diferente, lá fomos nós vasculhar a bela cidade de Luanda. Primeiro, direitos aos Correios e tentar pesquisar quaisquer tascos pelo caminho.

Lá fomos quatro "garimpeiros" à procura das nossas pepitas. Chegados aos Correios, as filas eram enormes para colocar selos, para telefonar, para ... consegui comprar uns postais, fugi das filas e fiquei com eles no bolso.

 

Por fim, Luanda "deitou-se", e depois de verificarmos que Luanda mais parecia uma cidade ocupada militarmente, pois só víamos militares, representantes das três armas, saídos do navio Niassa e cerca de dois dias antes os que saíram do Vera Cruz, muitos ainda andavam por ali, lá fomos encontrar, já perto da meia noite, na hora do fecho, um tasco que nos conseguiu arranjar umas bifanas que, enroladas em cerveja cuca, lá nos apasiguaram corpo e alma.

 

Por fim, comidos e regadinhos com a cerveja cuca, em vez de descermos até ao Niassa que nos aguardava na Baía, para dormirmos, resolvemos continuar a subir até ao Planalto. Passamos toda a noite a caminhar por uma cidade que dormia. Caminhando pelas ruas de Luanda, passamos uma noite onde o som predominante, além das nossas passadas nas calçadas, eram as chaves dos guardas noturnos.

 

 

Belezas de Luanda, tiradas do Youtube

 

Ao raiar da aurora, aproximamos-nos do mercado de Luanda e resolvemos fazer, por ali, uma boa caminhada até ele abrir. Nas calçadas de Luanda, além do barulho dos nossos sapatos, começamos a sentir alguma concorrência. Verificamos, então, qua as pessoas se tinham deitado cedo e, também, manhã cedo se começaram a dirigir para os seus trabalhos.

 

Um desses locais era o mercado de Luanda. Escusado será dizer que fomos nós, os primeiros clientes! Entramos e ficamos encantados com algumas das coisas que nos serviriam, belamente, para levar na nossa caminhada até à próxima paragem - Lourenço Marques. Presunto, chouriços, queijo e fruta.
Muita fruta! Ananás, laranjas, bananas, mangas e, algo muito especial - uvas! Uvas, no mês de Janeiro, para nós era um milagre! Vinham da África do Sul e podem crer que eram muito boas. Fomos todos carregados para o Niassa. Nenhum de nós os quatro perdia dinheiro em batotas, uma doença terrível!

 

Levamos as nossas compras para o Niassa e saímos de seguida para não cometermos o erro de chegar atrasados ao restaurante onde eu estava decidido a matar a fome, nesse dia, 15 de Janeiro de 1968.

 

Arrumamos as nossas compras mas o espaço era iníquo. Pendurei as frutas por cima da cama e lá fomos nós. Arranjamos um restaurante com uma boa esplanada. Eram 11 horas e começamos a ver o que havia para matar a sede sem ser cerveja. Eu estava enjoado de cerveja e de bolacha baunilha.

 

Vi uma garrafinha verde, muito bonita, cheia de bolhinhas e, foi então, que bebi o meu primeiro seven up. Aqui ainda não havia. Bebi o seven up mas o calor era tanto que voltamos à cerveja. Depois de bem regados pedimos um frango assado para cada um, acompanhado de batatas fritas! Disse logo ao empregado; não nos traga arroz, senão podemos dar cabo da esplanada! Nunca mais esqueci aquela esplanada! Até já a vi em sonhos mais de uma vez!

 

  

 O Ventor e um algarvio a matarem a fome em Luanda

 

Acabados de almoçar, demos mais uma volta, pela Marginal de Luanda. Tiramos umas fotos e de volta ao Niassa, fomos falando com as pessoas, mortas de saudades do "Puto" (Portugal) que se mostravam tristes quado dizíamos que seguíamos para Moçambique.

 

Por fim, lá entramos no Niassa, para a nossa segunda etapa, rumo a Lourenço Marques. Quando cheguei ao barco, de barriga bem cheia, assustei-me com aquela fruta toda! Disse logo: "estou lixado se levo com um ananás em cima da cabeça quando estiver a dormir"!

 

Com a serenidade devida, comecei a imaginar que a fruta tinha sido um mau investimento. E era mesmo! O calor iria estragá-la depressa e, por isso, o melhor era comê-la enquanto fosse viável. Um paraquedista que eu não conhecia de lado nenhum, pediu-me dinheiro emprestado para o seu jogo da lerpa. "Escolheste a porta errada, pá! Se quiseres comer fruta, tens aí. Dinheiro para jogo? Do que Deus te livrou"!
Esperei a partida do Niassa, observando Luanda e a sua Baía. O sol estava bem lá para o Oeste do Atlântico, rumo às Américas e nós, preparávamos a partida para a etapa que nos levaria a rodar o Adamastor, um amigo de estimação dos nossos antepassados e gáudio das nossas aulas de Geografia. Com os acenos de angolanos e alguns familiares da tropa que iria avançar para Moçambique, levantamos âncora e começamos a refazer o rumo que trazíamos de trás. Dissemos adeus a Luanda até uma próxima vez que, alguns, nunca mais teriam ...

 

Antes: Mar Alto

Depois: Frente ao Adamastor



O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

publicado por Quico e Ventor às 10:11