Áfriica!

O continente onde centenas de milhares de portugueses deixaram de sonhar e muitos milhares deles sonhavam com as aldeias graníticas de onde foram obrigados a partir, para os defender, segundo diziam, então!

 

Seja como fôr, foram realidades passadas por uns e por outros. Eu, como todos já sabemos, fui um dos outros! Dos socorristas! Um dia, com 17 anos, vaticinava eu, que teria chegado a hora de dar o meu salto para França. Já tinha alguém que me emprestaria o dinheiro no momento que eu quisesse. Um homem que nunca conheci bem e que tenho pena não ter podido conhecer melhor. Nunca mais o voltei a ver!

 

 
Palácio Foz

 

Mas um dia, caminhava eu pela Av. da Liberdade, em Lisboa, rumo aos Restauradores e, encontrei junto de uma porta, um grupo de pessoas preparadas para entrarem no belo Palácio Foz. Foi ali que fiquei! Perguntei onde era a bilheteira e disseram-me que a entrada era livre. Foi ali que eu comecei a ver o que era a África e fiquei a conhecer dois anos de guerra, em fotografias, passados, em Angola.

 

Conheci os terrores dos assaltos às fazendas do Norte de Angola. Assisti a pessoas trucidadas, brancas e pretas. Para estas serem motiladas, bastava que se deixassem ficar ao lados dos seus patrões. Era o passaporte para o inferno ao lado deles. Isso transtornou a minha alma!

 

Ontem, voltei ao Palácio Foz, assistir a um sarau de artistas de amanhã e recordei esses tempos!

 

No Natal de 1967, já caminhava eu pelas ruas de Lisboa, com os olhos em Moçambique. Já tinha Guia de Marcha, sobre uma secretária dos Recursos Humanos da Região Aérea Nº 1, para me ser entregue e dar início, no dia 04 de Janeiro de 1968, àquela parte da minha caminhada africana, onde, rumando no Niassa sobre as águas do Atlântico, tive a companhia dos mais belos companheiros que alguma vez podemos imaginar. Sempre à direita do navio Niassa, saíam do fundo das Águas, aquelas maravilhas saltando em arco - os Golfinhos. Do marejar das águas vinha o som por eles proferido: "salve, Ventor"!

 

Caminhando no Youtube, encontrei este vídeo, um exemplo das muitas mensagens de Natal que a nossa tropa dirigia pelos natais, às suas gentes. Porém este é especial! Encontrei aqui, entre outros, dois homens que fizemos parte do mesmo combate. Os pilotos aviadores, Alferes Relevo e o Furriel Brochado.

 

 

Natal de 1967, em Vila Cabral, e Mueda

 

Caminhava eu por Lisboa, enviavam eles mensagens para a sua família, por aqui e, no ano seguinte, estávamos juntos nas belas terras do Niassa, caminhando nos trilhos do perigo.

 

O Furriel Brochado e eu, estivemos em apuros na pista do AB6, num dia que o Comandante Araújo, me obrigou a ir de Marrupa para Nova Freixo para ser assistido pelo médico do batalhão de Nova Freixo ou seguir para o Hospital de Nampula. Levei algum tempo a fazer as malas, duas, uma cheia de livros e, no momento da aterragem já se tornara tarde. O Tenente Coronel Araújo foi com o Jipe para a pista tentando iluminá-la com os faróis e nós só víamos a linha branca ao correr da pista. Ela estaria na ponta do nariz ou nos precipícios do Inferno mas, estava lá. Quando a DO bateu com os pneus na pista nós voltamos a escalar o céu e perdemos tudo o que tínhamos. Ficamos penugens pairando na aragem. O Jipe vinha atrás de nós, um pouco ao lado, tentando iluminar a pista e nós no bate e sobe. Eu olhei para trás e só via o nosso Comandante com as mãos na cabeça. Penso que ele chegou a acreditar que estávamos nas mãos de Deus. 

 

Um bom Natal meu grande amigo Brochado! Espero que essa seja a vontade de Deus.

 

O Alferes Relevo, ainda o voltei a ver no Aeroporto de Lisboa. Caminhava eu à procura de portugueses que pudessem dar uma ajuda à minha mãe, no avião, na sua primeira viagem para os Estados Unidos. Vejo dois pilotos da TAP, a entrarem numa porta que se fechava. Conheci a cara de um mas, não recordava o nome dele. Lancei a escada à Guerra e gritei, no momento em que a porta se fechava: "Ícaro, Fox Oito Fox". A porta voltou-se a abrir e de dentro saía uma cara que eu sabia ser amiga: "não me digas que vou ser eu a levar-te para a América"! «Talvez um dia mas, hoje, não»!

 

«Queria ver se me indicavas uma Hospedeira do Voo "X" para os Estados Unidos, para dar uma ajuda à minha mãe, ela é que vai»!

"Sou eu o Comandante desse voo. Dá-me o nome dela e está entregue"!

 

A minha mãe, lá foi acompanhada de uns portugueses que viajavam da Austrália para os Estados Unidos e sentia-se bem com eles. Quando o meu amigo a foi buscar para a levar para o Cockpit e ir junta com eles, observando bem o Atlântico e ver bem o impacto da chegada a Nova Iorque, ela recusou-se!

 

"Venha comigo minha senhora, eu e o seu filho somos amigos, estivemos juntos na guerra, somos como irmãos. Venha connosco no Cockpit. Lá é muito melhor"!

«Não meu senhor, eu daqui não saio. Não quero copito nenhum»!

 

Obrigado meus amigos.

Para todos vós um BOM NATAL e um abraço do Fox.

 

Mas todos teremos passado dois Natais em África. Eu passei o Natal de 1968, o ano da chegada, em Nova Freixo, no AB6. Vim de Marrupa para Nova Freixo e nem me recordo porquê. Podia estar mais tempo em Marrupa e ter passado lá o Natal mas, isso não aconteceu. Creio que não me lembrei do Natal e, como tinha os olhos, em Vila Cabral, apanhei o Nord-Atlas e desci até Nova Freixo.

Em 1969, passei o Natal em Vila Cabral. Este eu nunca vou esquecer! Faz parte das minhas entranhas!

 

Para aqueles que andam por aqui, todos, como dizem, abesseistas, um Bom Natal, Um Natal cheio de tudo bom, especialmente, saúde.



O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

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publicado por Quico e Ventor às 08:09