... o Governador.

 

Um dia cheguei a Moçambique. Segui rumo e tudo correu como eu queria. Fui parar ao Niassa, Nova Freixo, mais precisamente, AB6 - Aeródromo Base 6! Isso aconteceu no ano de 1968 e a 31 de Janeiro, cheguei a Nova Freixo. Dois meses, em Nova Freixo e rumei a Marrupa, logo de seguida. Por ali, com intervalo de cerca de meio mês, estive oito meses e meio.

 

Foi, em Marrupa, que ouvi falar de um homem. Um militar que, seria, na altura, Ten. Coronel, ou Coronel, não me recordo, mais creio, seria Coronel - O Coronel Melo Egídio,  do Distrito do Niassa.

Um dia, em Marrupa, no Aeródromo de Manobras, AM 62, de manhã, estava o meu amigo "Louco da Malásia" de serviço, no Posto de Rádio e eu, dormindo! O dia acordou com uma grande trovoada, sobre Marrupa. Na sequência da azáfama do dia anterior, eu dormia e, de repente, senti que o Posto de Rádio da Força Aérea, em Marrupa, se tivesse para onde cair, iria abaixo!

 

Um corropio de militares invadiu o Posto de Rádio! O burburinho deles, juntou-se à pedalada dos relâmpagos e dos trovões. Tudo aquilo se tornava insuportável. Eu, que até era bom rapaz, pelo menos, fazia por isso, comecei a sentir-me chateado. Sem reparar quem estava, pedi, ao meu amigo Louco da Malásia, para desligar os equipamentos. Ele assim procedeu. Mas a pressão sobre ele era muito grande! Um grupo de militares, achava que o homem não falhava e que chegaria, mesmo no meio da trovoada. No meio da balbúrdia acabei por acordar e virei-me para o outro lado. Mas a algazarra foi aumentando e eu, sem mais nem menos, metido no meio dela, sem justa causa. Pelos fios que desciam das antenas, desciam também os raios e o Posto de Rádio parecia incendiar-se.

 

Por fim, ouvi uma voz! "Que está você aqui a fazer? Você não está de serviço? Ligue essa merda, senão os homens ainda morrem e nós não sabemos"! O Louco da Malásia que, também era bom rapaz, cedeu e fez a vontade aos cabeças do ar condicionado do Sector Echo, ligando os emissores. Um raio endiabrado penetra junto dos fios. Parecia que nos queria destruir o Posto do Rádio. O meu sono sumiu! Endiabrei! Levantei-me, com calma, em slipes, passei no meio dos cabeças de ouro do Sector Echo e, ... sem mais, dirigi o dedo grande do meu pé direito, ao botão geral dos equipamentos de rádio, pressionei e disse: "só gente que não percebe nada disto, julga que um avião entra hoje, em Marrupa, enquanto as circunstâncias se mantiverem.

 

Virei-me para o meu amigo Louco e disse: "não ligas mais esta merda, hoje, enquanto eu não te disser, ouviste! E que está esta malta aqui a fazer? Todos lá para fora! Ficamos só eu e o Louco da Malásia. Por fim, mais tarde, os nossos amigos do Sector Echo, acabaram por abalar. Chegaram à conclusão que eu tinha razão e desandaram. Pensaram que o avião nunca mais chegaria, como não chegou! Seria impossível e ainda bem para todos!

 

 

 
 

 

Soube, na sequência dessa pequena escaramuça, que o Senhor Governador Civil do Niassa, teria informado que, naquele dia, iria fazer uma pequena visita à bela terra do DESTERRO - Marrupa!

 

Dias, depois, fui informado, pelo meu Comandante, em Nova Freixo, que havia uma queixa do Comandante do Sector Echo, em Nampula, contra mim e queria saber pela minha boca, o que se tinha passado. Disse-lhe que não sabia de nada, tinha de se "esmerar" para me fazer compreender o porquê. Então, lá vinha o meu aparecimento  no meio do Staff de Marrupa em trajes menores! Percebi tudo! O ataque daquele Maralhal, contra o Fox, saiu baldado.

 

 
Algum tempo de felicidade, nas escaramuças da guerra

 

Mais tarde, apareci em Vila Cabral e, podem crer, vim a conhecer o Senhor Governador Civil, Melo Egídio e, se alguém tiver dúvidas, podem crer que tivemos sempre um relacionamento exemplar. Para ele, eu era o Ok, OK, ... porque lhe resolvia os problemas da sua malta civil, sempre que possível, especialmente, nos transportes para o Hospital de Nampula e não só.

Poderia falar muito sobre esses tempos do Niassa e bastante, sobre esse homem que me pareceu bastante querido pelas populações desse Distrito. Tenho também o episódio das árvores de Natal, em 1969, escrito por aqui e que fez que nunca me esquecesse dele.

 

Esse homem, o Governador do Distrito do Niassa, em Moçambique, que veio a ser Chefe do Estado Maior General das Forças Armadas e Governador de Macau e que, por determinação do Senhor da Esfera ou das Parcas, nos deixou hoje, merece toda a minha consideração e votos de simpatia pelo pouco tempo de convivência que tivemos no Niassa, em Vila Cabral.

 

Deixo aqui os meus pêsames a toda a sua família, especialmente, à sua filha Paula, que melhor conheci, se é que ainda existe, neste nosso mundo, neste nosso Planeta Azul.

 

Que Deus o Guarde, Senhor General.



O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

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publicado por Quico e Ventor às 23:16