Cahora Bassa (na língua local nhungué, significa: onde acaba o trabalho), nasceu e cresceu, no rio Zambeze, a cerca de 120-150 km de Tete.

No ano de 1969, quando eu caminhava por Nova Freixo e Vila Cabral, mais tarde chamadas de Cuamba e Lichinga, ouvi, pela primeira vez, falar na obra a que chamavam Cabora Bassa.

Em honra do que viria a ser essa grande barragem, tinha sido construída na zona de Vila Cabral (Lichinga), para os lados de Nova Madeira, uma barragem para irrigação a que chamaram Mini Cabora.

 

Podem ver aqui, no Shutterfly, as fotos de Cahora Bassa e arredores.

 

Um dia, eu e mais três mangas, saímos da Força Aérea de Vila Cabral (AM 61), armados de G-3 e apeteceu-nos caminhar até essa nova barragem e tinha sido aquilo a que eu poderei chamar, uma das grandes caminhadas do Ventor. Atingimos a barragem e depois hesitamos em subir pelo pico mais íngreme até ao monte da Capelinha. Só que por aí, ninguém subia para o monte da Capelinha, a não ser doidos! Mais ainda, quando dias atrás, conversando com um preto das milícias de Daniel Roxo e outro popular da cidade que conheciam aquela zona, me dissuadiram de subir aquela encosta, pois no seu seio haveria uma Pitão (vulgo jibóia), que seria do maior que existiria, em África. Nenhum deles me deu a certeza, mas era o que se constava e perante as incertezas, devemos sempre ser precavidos.

 

 

Barragem de Cahora Bassa, vista cá de cima

 

Nesse dia, das margens da barragem Mini Cabora, olhei a tal encosta mas não havia nada a fazer e subimos pelo lado contrário, em direcção a Vila Cabral, ao nosso Aeródromo. Na picada, do lado de Vila Cabral, começamos aos tiros aos patos com G-3. Os patos, coitados dos patos, não corriam perigo algum a não ser o barulho dos tiros. Eles voavam de ponta a ponta da barragem e, cada vez que a bala de G-3 entrava na água, eles, para nosso gáudio, faziam a sua demonstração de voo.

O então Inspector da PIDE/DGS, em Vila Cabral, Gonçalves Dias, apareceu de jipe, acompanhado por um dos seus agentes, deixando atrás um lastro de pó, no engodo do barulho das nossas célebres G-3.

Depois de uma valente reprimenda em que acho que só lhe faltou chamar-nos tarados, acabou por nos oferecer boleia para a Base no seu jipe, ocupado à frente por ele e o seu agente e com 4 lugares nos bancos laterais atrás (dois de cada lado).

 

 

 Uma espécie de gralha (?) na Barragem de Cahora Bassa

 

Eu, olhei para os cães, cheios de sede, com língua de palmo e meio de fora e disse: "aceitamos a boleia mas temos de levar os cães também"! Os cães eram 4 latagões, o Goldfinger, a Leoa e mais dois do seu tamanho. O Inspector olhou para mim e disse: «os cães vão atrás, a pé. Eles não se perderão»! Eu com toda a calma deste mundo: "está bem! Vão vocês que eu vou a pé com os cães"! O Inspector, Gonçalves Dias, já a ficar furioso: «vai a pé só? Já viu quantos km são? Você regula bem da cabeça? Sem água, com kms pela frente, com um calor destes na picada e nem tem onde beber! Se acha que os cães cabem, por mim até os podem levar ao colo, metam-nos dentro»! Lá nos amanhamos e dentro do jipe, lá trás, os 4 marmanjos e os 4 cães, colados uns aos outros, lá seguimos rumo ao AM 61.

 

Esta e outras caminhadas, umas vezes acompanhado, outras vezes só, são experiências de vida que nunca esqueço. Esta caminhada foi pelo monte da Capelinha, pela Mini Cabora e por conta da tal gibóia.

 

 

Cahora Bassa, nos tempos de chuva, tem água a rodos

 

Para mim, aquela pequena barragem já era grande, pois bem nos custou dar a volta a mais ou menos, entre 1/2 a 3/4 da sua periferia. Mas, mais tarde, fiquei siderado pelo tamanho dos números da grande barragem da Cabora Bassa! Eu que até estava habituado a deslocar-me ao LNEC (Laboratório Nacional de Engenharia Civil), em Lisboa, para observar os estudos de mini-hídrica ali levados a cabo sobre algumas das maiores barragens do mundo de então, onde não tínhamos nada a aprender com ninguém.

 

Mais tarde, acordei para os números de Cabora Bassa:

então, a segunda maior barragem do Continente Africano e a quinta a nível mundial;

uma albufeira com um comprimento de 250 kms e uma largura máxima de 38 km, com uma superfície de cerca de 2.700 km2 e uma capacidade de 63.000 milhões de m3 de água;

é uma barragem de tipo abóboda com uma altura de 163 m acima das fundações;

é detentora de uma capacidade de vazão de 13.600m3 por segundo;

possui uma potência com um grupo de 5 geradores de 415 Mw cada, podendo produzir 2075 gigawatts por hora, podendo a sua capacidade vir a ser aumentada;

as suas linhas de transporte de energia atingem cerca de 1.400 km, 860 km dentro de Moçambique;

foram escavados, 1.500.000 m3 de materiais, dos quais:

 - 200.000 m3 para a fundação da barragem;

 - 1.300.000 m3 para a abertura da Central, túneis de acesso, galerias da condução e sala de transformadores;

são mais de 2,5 kms as galerias, túneis e cavernas escavadas;

os 5 geradores de 415 Mw cada, estão albergados numa caverna de 217 m de comprimento, 29 m de largura e 57 m de altura;

As chaminés de equilíbrio, duas, têm comprimentos de de 242 e 342 m, por 15m de largura e 18 m de altura;

Foram empregues 600.000 m3 de betão ou concreto, dos quais, cerca de 450.000 m3 para a barragem e 150.000 m3 para obras subterrâneas;

Cabora Bassa foi a maior barragem de betão ou concreto, construída em África.

 

 

Se o Quico estivesse aui aposto que me perguntaria como este gajo me borrou a camisola ou, então se ele caíu numa lata de tinta de rabo para o ar

 

São números que nos falam de uma grandeza descomunal e, essa barragem, pode ser uma catapulta para outras vontades no levantamento de um Moçambique com a grandeza que merece.



O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

publicado por Quico e Ventor às 22:13