em Tempos de Guerra

 

E, integrada neles, uma bela Companheira de Guerra!

 

Para os Duros do Niassa: imaginem que estão a sonhar com o AM 62 - Aeródromo de Manobras 62, em Marrupa, no ano de 1968 e, estão a vê-lo de noite. Tenho de procurar o nosso Bar - o Calhambeque - para bebermos umas laurentinas.

 

Pois é amigos, o mundo dos homens é, realmente, muito complicado! Este Ventor põe-me maluco só em fazer-me pensar pelo que eu poderia ter passado se fosse homem, da geração do Ventor, no século que passou!

 

O Ventor disse-me que podia escrever aqui, parte da sua caminhada por África, em Tempos de Guerra. Mas não devia contar mais que o estritamente necessário para dar a conhecer às gerações futuras, partes inesquecíveis do nosso (vosso, de homens) passado colectivo. Eu sou gato, fico de fora!

 

Por isso, continuarei a falar da caminhada do Ventor, em Tempos de Guerra, nos seus contactos com os animais de África mas, também, da sua caminhada nos trilhos da Guerra, cheios de alegrias e tristezas, mortes de uns e uma vontade enorme de viver, de outros. Xiu!!!! Aqui para nós, eu sei que o Ventor chorou em África.

Para isso vou começar a falar da Guerra, introduzindo aqui, uma das mais belas companheiras que o Ventor nunca teria imaginado se não fosse real.

 

Não vou dizer aqui o seu nome mas, ela foi a melhor companheira de guerra que um combatente poderia imaginar! Também tenho uma foto dela mas ai de mim se a colocasse nesta janela para todos olharem!

Como? O Ventor diz que posso dizer que o nome próprio dela é (era) "Íris" e que, quanto à fotografia, posso representa-la por esta flor.

 

 

Imaginem que esta flor foi a Companheira de Guerra do Ventor

 

Então, o Ventor começa assim:

 

«Um dia, na Ota, na Base Aérea 2, recebemos uma montanha de cartas de várias universidades americanas. Um dos meus Companheiros de Guerra, conhecia alguém na Embaixada Americana, em Lisboa, creio que o Adido para a Imprensa e, através dele, enviou uma mensagem para um jornal dos States, creio que o New York Times, que rezava assim: "soldados alunos da Força Aérea Portuguesa, da Base Aérea 2, Ota, pretendem corresponder-se com alunas das universidades americanas ... " - em inglês, claro!

 

Uma tarde, eu entrei na Camarata onde havia uma grande algazarra e, esse meu Companheiro de Guerra, tinha, em cima da cama, literalmente, uma montanha de cartas. Todos mexiam naquele grande bolo de papel e ele, como senhor do dito, dava as suas instruções, no sentido de distribuir, fatia a fatia, por todos. Olhei apressadamente e ele disse-me; "pega aqui numas quantas, lê e escolhe! Eu ri-me, deitei a mão pelo meio delas e apanhei uma à sorte. "Só"! - Perguntou-me ele. "E chega-me" - disse eu. "Pensa que não tenho que fazer"?

Eles continuaram a algazarra que, afinal, era muito simples. Escolher as cartas com origem em determinada Universidade. Uns queriam a, outros queriam b e assim por diante mas, eu, tirei à sorte! Saiu-me uma bela menina da Universidade de S. João de Porto Rico.

 

Um ou dois dias depois, abri a carta que era uma simpatia para qualquer de nós. Li, reli e voltei a ler e, depois, perguntei-me, a mim mesmo, "porque não"?

 

Escrevi à menina que se prontificou a ser animadora das nossas juventudes nas guerras africanas e, posteriormente, teve a coragem de me seguir, por correspondência, durante mais de quatro anos. Ela contava-me a sua vida, na Universidade de S. João de Porto Rico e eu, contava-lhe a minha na Força Aérea Portuguesa. Ela falava-me da sua terra e eu da minha. Ela falava-me do que sabia e do que aprendia comigo e eu, falava-lhe do que sabia e do que aprendia com ela. Ela foi uma verdadeira Companheira de Guerra. Eu não tinha Madrinha de Guerra, muito em voga, na altura, não ligava a isso mas, ela, foi a mais bela Madrinha de Guerra que eu podia ter imaginado!

 

"Ventor, todas as noites choro e rezo por ti. Choro ao ler as tuas cartas de Moçambique e choro ao ler as cartas do meu irmão do Vietname. Todas as noites rezo por ti e por Moçambique, pelo meu irmão e pelo Vietname. Toda as noites ouço as vossas músicas que, com tanta alegria me referenciam. Aqui, na Universidade de S. João de Porto Rico, nós somos contra as guerras. As minhas companheiras mais amigas, nesta Universidade, que me acompanham em algumas leituras de algumas das vossas cartas, choram comigo. Umas vezes choramos de tristeza, outras vezes, choramos de alegria. Ouvimos as vossas músicas quase como uma religião. Eu não te conheço mas, chego a convencer-me que te conheço muito bem e até moramos na mesma rua. Sei que também estás dentro do arame farpado como o meu irmão, neste momento, na Base Aérea de Danang, sítio horroroso do Vietname. Que Deus vos traga de volta às vossas casas, peço sempre à nossa Senhora de Fátima e à Padroeira de Portugal".

Provavelmente, a nossa Padroeira também será a deles porque a Senhora de Fátima já sabemos que também é!

 

Esta moça tinha um nome bonito que, durante cinquenta e tal meses, foi minha companheira de venturas, através de esferográfica e de folhas de papel.

 

Ao chegar a Luanda, encantado com a beleza daquela Baía, morto de sede e de fome, dei prioridade às comunicações com familiares e amigos e enviei um postal da cidade para a minha "Companheira de Guerra" de além-Atlântico e depois da minha chegada a Moçambique, reatei os nossos contactos para a minha nova morada, o SPM-Serviço Postal Militar. Sempre que me mexia, contactava-a para não nos perdermos. É engraçado que lhe falava de quase tudo, à posterior e nunca fui incomodado por isso! Para além da Guerra e das minhas tarefas distribuídas, eu fazia grandes caminhadas e tirei algumas fotos com uma bela máquina a preto e branco que era do melhor que havia como marca mas, depressa deixou de funcionar. Os trambolhões, a humidade, as dilatações provocadas pelo calor, o pó e tudo o mais, levou-a a desaparecer do meu convívio, muito rapidamente. Assim, além das caminhadas, o meu passatempo, passou a ser, ainda com mais afinco, a música.

 

Assim, muitas vezes, ouvia música pela noite dentro, através da Rádio Clube de Moçambique e LM Radio e quantas vezes ao som dessa música e inspirado por ela, escrevia as minhas cartas para a minha "companheira anti-beligerante" que, com armas e bagagens se batia de outra forma, na Universidade de Porto Rico.

 

Como ela me dizia, quase todas eram contra as guerras mas, ser contra as guerras, não significava que fossem contra aqueles que eram obrigados a combater nelas. Por razões mais que óbvias, se assim fosse, ela teria de ser contra o seu irmão na Guerra do Vietname e contra mim, na Guerra de Moçambique. Eram sim, contra as razões que levavam os homens à guerra e não contra os combatentes em si"!

 

Diz o Ventor que esta moça, de origem hispânica,, era muito inteligente e teria, certamente, uma miscelânea de sangue espanhol, Azteca, Maia ou dos amigos Incas do Ventor. Os seus olhos negros, saídos de uma tez morena e viva, indicavam ao Ventor, traçados das caminhadas do seu passado que desde há milénios fez entre os Incas, seus companheiro galácticos!

Que a Iris (digo eu) seja muito feliz no seu S. João de Porto Rico ou, algures, em qualquer canto do Mundo.

 



O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

publicado por Quico e Ventor às 20:39